quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Romance do Mágico (cordel de Guilherme de Faria)

1
Nascido numa aldeia
Que em sua simplicidade
Não chegava a ser feia
E nem era uma cidade

2
De tão pequena e singela
Onde o povo ainda come
Com a mão e na tigela,
Conquanto não passe fome.

3
Não tinha pois novidades
Entra mês ou saia mês
A não ser enfermidades
Ou a morte de uma rês,

4
Também de alguma tia,
(que era tudo parentalha),
Mas a dor se alguém morria
Era só fogo de palha.

5
E assim tempo passara,
Eu já tava com dez anos,
Ainda não chegara
O tempo dos desenganos.

6
Então chegou frente à escola
Um carro com auto-falante
Em cima de grande cartola,
Repetindo a todo instante:

7
“Hoje é dia de magia!”
“Conheçam o grande Faruque,
O mago que a gente espia
E não descobre seu truque!”

8
“É magia Abracadabra,
Não tem mistificação!”
(adorei a conjunção:
mistifica ou então abra...)

9
“Às sete horas da noite
Na sala da escolinha.
Mas que ninguém se afoite,
Avisa a professorinha"

10
"A quem "o Mago de Angola"
Agradece a gentileza
E o uso de sua mesa
Para pousar a cartola!”

11
E assim naquela tardinha,
Tremendo de excitação
Fui ver aquele que tinha
O segredo da emoção,

12
De negro vestido e cartola,
Com capa preta e vermelha,
Com aquela alta gola
Que a do "cujo" se assemelha.

13
O homem era elegante
E ainda trazia um anão
Com um bufante calção
E uma espécie de turbante.

14
Mas na hora da função,
Sendo muito alta a mesa
Para o pobre do anão,
Chamou a dona Tereza

15
Nossa professorinha
Que era linda de amar
(e nisso estava sozinha)
Para ser sua auxiliar.

17
Deu-lhe a sua cartola
E fez ela nos mostrar
Virando a cuja no ar
E até pondo na cachola

18
O que fez a gente rir
(ah! que graça ficou!)
E depois a entregou
Para o anão repetir.

19
De volta na mão do mago
Que tirou uma garrafinha,
Levou à boca num trago
Virando o resto que tinha

20
Dentro daquela cartola
Que começou a brotar
“Como os frutos da escola!”
(não deixou de proclamar).

21
E de repente, kabou!
Aquele pequeno arbusto
Sumiu para nosso susto
E uma pomba voou.

22
Foi um delírio na sala,
Eu chorava de beleza,
Mas a dona Tereza
Essa então nem se fala!

23
Mas depois de outros lances
Que não vou nem descrever
Nada mais foi como antes,
Mas pelo que se vai ver:

24
Todos com ar jucundo
Voltamos, sonhando um dia
Fazer aquela magia
E andar aí pelo mundo.

25
E dormi como quem goza
Depois de muito excitado
Para ser só acordado
Com uma notícia espantosa:

26
Dona Tereza sumira,
A nossa professorinha!
Com o mago ela fugira,
Deixando o anão na escolinha

27
Onde até hoje é o bedel,
Não de calção bufante
Mas ainda de turbante,
Que ele mantém, fiel.

28
Nunca mais se ouviu falar
Do mágico e da Tereza
Mas qual príncipe e princesa
Eles teimam em me ficar.

29
Mas o anão, coitado,
Que fora abandonado,
Nem se mostra ressentido,
Entre nós fora acolhido.

30
E se a gente lhe pedia
Revelar truques do mago,
Repetia, meio vago:
“Sedução... amor... magia...”

FIM

18/12/2008

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Romance do sangue e da água (cordel de Guilherme de Faria)


1
Não era um sítio isolado
A nossa terrinha antiga
Mas sem cabeças de gado,
Sem horta, que nada irriga.

2
Só cabras mascando coisas
Que nem sei se são raízes
Confinando com os Soizas
Com seus dois ou três Luizes.

3
Havia pouco em disputa
Mas sangue vinha na boca
E o gosto era de luta
E não se dormia de touca.

4
Por “dá lá aquela palha”,
E palha não faltava
Já que tudo esturricava,
Soa um tiro, outro ali falha.

5
Eu já tava descorçoado
De viver daquele jeito
Trazia uma bala no peito
E duas aqui do lado.

6
Mas em compensação
Já perdera dois dos filhos
E eles dois dos Luízes,
Que eram cinco os infelizes.

7
Já não se podia andar
A esmo por esta senda
Pois a bala das crianças
Era vendida na venda

8
E não era bala de mel
Ou de celofane o papel,
Mas de chumbo e amarga
Com direito de recarga.

9
E foi aí que eu quis
Chamar o velho Luiz
Para um duelo de morte
Que nos decidisse a sorte.

10
Desde que o que sobrasse
Então por honra adotasse
O filhos do falecido:
Nem vencedor, nem vencido.

11
O mais incrível, hoje vejo,
É que o Luiz velho aceitou
E comigo duelou,
Que era só um percevejo

12
Na cama dele, mais rico,
Que não tinha nem um tico
De medo, mas sim ganância,
Enquanto eu, arrogância.

13
Mas eu sabia que ao menos
Sua palavra mantinha
Até pelo orgulho que tinha,
O resto era de somenos.

14
E assim, de madrugada
Com a arma engatilhada
Nós fomos para a restinga
Seca como a caatinga

15
Mas eis que na chapada
Foi trovão que ecoou
E chamou a sua amada
Que sobre nós desabou

16
E encheu o leito seco
Que até mesmo desbordou
Cobrindo de verde e esterco
A horta que então vingou.

17
E o gado por milagre
Que pastava e paria
Devolvia pra Maria
O leite que lhe faltou.

18
Na chuva nos abraçamos
O velho Luis e eu
Juntando o dele e o meu
E só balas não plantamos

18
Jogando elas no rio
Como peso para anzol
Pois um novo arrebol
Encerrava o desvario.

19
E juntamos os dois Luizes
Com os meus dois Joões,
As Marias e seus botões
E estes velhos narizes

20
Que já não andavam erguidos
Farejando nosso sangue
Que agora está contido
Na alma como num mangue.

21
Formamo uma só família,
O velho Luiz finou,
Também a minha Maria,
Fiquei com a que restou.

22
Foi assim que a água veio
E que o sangue refluiu
Neste sertão que era feio
Quando reinava o fuzil

Neste mamilo de seio
Que o povo chama Brasil...

FIM

14/12/2008

Romance do papa-velório (cordel de Guilherme de Faria)



Romance do papa-velório

(cordel de Guilherme de Faria)

1
Pra esta platéia atenta
Não vou contar causo triste,
Mas um pra quem se contenta
Com pouco mais que um chiste.

2
Sei que a morte é causo sério,
Não gosta de quem co'ela brinca,
O riso logo se trinca
Quando diante do Mistério.

3
Freqüentava aqui o Empório
Um macabro empedernido
Chegado em defunto e velório
E de viúva o gemido.

5
Enterro, então? Prato cheio!
Para o Osório era um festão,
Que se punha ali no meio
Ou num’alça do caixão.

6
Depois, na beira da cova
Queria dar uma mão
Uma pá de terra nova,
Um berreiro e uma oração.

7
Mas sobretudo discurso,
Que nisto ele era mestre,
Embora das letras pedestre
E educado como um urso.

8
Foi então que nos morreu
O velho padre Tadeu
Envolto em sua batina
Branca como parafina.

9
Tinha fama de santinho,
Uma vida em castidade,
Nenhum fio de descaminho
Verdadeira santidade.

10
Ah! Lá estava o Osório!
O primeiro no velório
De terno preto o finório,
De gravata e suspensório.

11
Tudo de praxe correndo
Se não fosse a choradeira
Quando se abriu a torneira
Do besteirol tremendo.

12
Voavam pombos e flores,
Auréolas de santidade,
Nada de simples amores,
Mas Virtude e Castidade.

13
Mas não foi esse o problema,
Até aí, tudo bem...
Mas empolgado c’o tema
Osório foi mais além

14
E começou a contar
Suas próprias confissões
Para se vangloriar
Das tais absolvições

15
De que o padre era pródigo
E as modestas penitências,
Contrariando o código,
E nada de abstinências.

16
Logo a cidade inteira
Era toda desnudada
Não havia bandalheira
Que não fora perdoada.

17
Padre Tadeu pronto e presto
Perdoara até o prefeito
Em sua eleição de cabresto
E seu coreto malfeito

18
Que desabara c’o vento
E o relógio da torre
A girar como num porre
Parecendo um catavento.

19
Depois os vereadores
Todos eles grão-senhores
Numa aldeia de dores
Pobrezas e maus odores.

20
Quanto à nossa burguesia
(até aqui isso medra...)
Não sobrou nenhuma pedra
Dentro dessa sacristia.

21
Começou a revolta
Correria e empurrões
Até alguns palavrões
E a chegada de uma escolta

22
Para levar o Osório
De volta pro nosso Empório
Que ficou co’a triste fama
De urdir e jogar lama.

23
Desde então o “velorista”
(velador que desvelou)
Como que se aposentou
E só vive de entrevista

24
Quando chega alguém de fora
Vamos logo apresentando:
Esse é o nosso Osório
Que acabou com o velório

25
Do santo da nossa vila
Junto com a reputação,
Se não da população
Mas dos notáveis em fila.

26
Vocês perguntam, meus filhos,
Como o Osório conhecia
Os podres e os pecadilhos
Que por dentro acontecia?

27
É que o santo padre bebia
No nosso Empório e curtia
Contar pra nós os pecados
Dos poderosos e honrados

28
Que no domingo ajoelham
Naquele confessionário
Para abrir o relicário
Onde todos se assemelham!

FIM
14/12/2008

sábado, 13 de dezembro de 2008

Romance da barca furada (Cordel de Guilherme de Faria)



Romance da barca furada (Cordel de Guilherme de Faria)

(No man is an island... (John Donne 1572-1631)


1
Contarei coisas do povo
Com o mesmo entusiasmo,
Não vou repetir de novo
(Que é puro pleonasmo).

2
Não me canso de contar
Causos que admirei,
Que pude testemunhar
E os que eu mesmo inventei.

3
Este é um que considero
Que a verdade está nele,
Não há o que se assemelhe
Mais à mentira que o vero.

4
Vive naquela ilha
Um sujeito amargurado
Por ter perdido a família
Num barco velho e furado.

5
Há anos a travessia
Era feita ao continente
Pra buscar uma bacia,
Pra buscar cama patente.

6
Tudo naquela barca
Era trazido de longe
Uma cuia ou uma arca,
Jovem padre ou velho monge.

7
Genivaldo, nosso homem
Vivia daquele barco
Pois lá as pessoas comem
Sem nem fabricar um arco.

8
Quero dizer, dependentes
Dessa civilização
Para uma faca ou um pão,
E pra palitar os dentes.

9
Mas Genivaldo contava
Com sua barca querida
Que no entanto não cuidava
Com a atenção devida.

10
Nunca de tinta um demão,
A barca arquejava e gemia,
Esturricava e pedia
Por um pouco de alcatrão.

11
Até que naquele dia
Sua mulher quis ver a tia
E aproveitar pra trazer
Mais um pouco o de comer

12
Já que de peixe e farinha
Ela e a filha estavam fartas,
Precisando menos linha
E mais tinta para as cartas.

13
Aboletadas no barco
Com chapéu e a melhor roupa
As duas seriam marco
De mudança, ainda que pouca,

14
Que se fez naquela ilha
Depois que mãe e filha
Em sua última travessia
Sumiram sem garantia

15
Pois a verdade é que não
Vieram a dar nas praias
Os corpos e aquelas saias
Que virariam canção.

16
Genivaldo então virou
Aquele santo eremita
Que o contato humano evita,
Que não mais se procurou.

17
Nem barca e nem família,
Nem tesoura, nem um banho
No meio daquela ilha
Que ao menos teve um ganho

18
Pois começaram a plantar
E seus potes fabricar
Em honra à mãe e filha
E ao homem santo da ilha.

19
Por isso, apesar do ranço
Não há injustiça no mundo
Pois para haver avanço
Alguém tem que ir ao fundo...

20
Ou então fugir das Ilhas
Que muito perto ou a milhas
Isolam a alma e a mente:
Somos todos Continente!

FIM

13/12/2008

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Romance da moça que peidava flores (Cordel de Guilherme de Faria)


Romance da moça que peidava flores (Cordel de Guilherme de Faria)


1
Meus amigos, vão ouvir
Uma estória "inusitada"
Para quem não sabe nada
Começo por definir:

2
Este palavrão ostento
Como quem diz “gente pelada
Andando não em quebrada
Mas na igreja ou num convento”.

3
Ou como quando no parto
Um bebê em vez de choro
Diz olhando em volta o quarto:
“Vim desafinar no coro.”

4
Pois bem: havia na vila
Onde vim e fui criado
Uma donzela, a Camila
Com um dom inusitado:

5
A moça soltava pum
Com perfume de jasmim
E isso foi (ai de mim!)
Desgraça pra mais de um.

6
Mas isso só era fatal
Porque a moça era beldade
E quando soltava o tal
Tomava inteira a cidade

7
Principalmente de noite,
Pois lá não tem pé de jasmim,
Assim como não tem “boite”
Com moças de trancelim.

8
Então quando o tal perfume
Invadia ruas e lares
As mulheres tinham ciúme
Das cacholas dos seus pares

9
Pois aquilo era sintoma
De imaginação a voar
Para a fonte do aroma
E seu singelo piscar.

10
Então o nosso prefeito
Pressionado por comadre
Em vésperas de novo pleito
E açulado pelo padre

11
Decretou aquela rolha
Que seria a solução
Para evitar a escolha
Drástica da expulsão.

12
E assim foi a comitiva
Com a presença do padre
Com a rolha e uma comadre
À casa da nossa diva.

13
Mas depois de uma hora
A aldeia em polvorosa
Viu sair a tal pletora
Comovida e até chorosa.

14
Não se soube na verdade
O que lá dentro ocorreu
Pois a Camila morreu
Em odores de santidade.

15
Entre peidos e flores
Passamos por esta vida
Ninguém como a falecida
Uniu em si tais odores.

16
Bem... eu bem que alertei
Sobre a estória inusitada
Que eu mesmo testemunhei
E que tenho entranhada

17
Nas narinas da memória
E na visão encantada,
Pois fiz parte desta estória
E da “missão arrolhada”

18
Não esquecendo jamais
O último pum e os ais
Da despedida das flores
E a volta dos maus odores

19
Que a inveja perpetua
Na nossa aldeia mesquinha
Que agora vende e cultua
O “perfume da santinha”...

FIM
09/12/2008

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Romance do Chalaça (Cordel de Guilherme de Faria)

Romance do Chalaça
(Cordel de Guilherme de Faria)

1
Havia um cidadão
Conhecido por Chalaça
Que virou um cortesão
Não desprovido de graça

2
Pois era do Imperador
Companheiro de gandaias,
Nas baladas, a rigor,
Atrás de rabos de saias.

3
O Libertador Dom Pedro
Era um tanto libertino
Temerário pois sem medo,
Chegado num desatino.

4
Assim mimava o bendito
Como o seu favorito
Um pouco por pura pirraça,
Outro tanto por cachaça.

5
Dom Pedro era bom sujeito
Embora luxurioso,
Quando amigo era do peito
Permissivo e generoso.

6
Armados só c’um cacete
Se encontravam no escuro,
Consta que pulavam o muro
Do palácio do Catete

7
E iam pelas ruelas
Daquele Rio boêmio,
Meio escuro à luz de velas
Mas alegre como um grêmio.

8
Gostavam de um lupanar
De Madame Corine
Uma cortesã “très fine”
Vinda de outro além-mar.

9
Ali “fechavam a bodega”,
Quer dizer: só pros amigos,
Conferindo os umbigos
Numa espécie de refrega

10
Que durava a noite inteira.
Que digo? Também o outro dia
Enquanto a corte fazia
Vista grossa ou pagodeira.

11
Nosso Brasil, pois, já era
O que já fora em colônia
C’os Capitães de outra Era
Também chegados na esbórnia,

12
Mais tarde os coronéis
Trazendo pras suas salas
As mucamas das Senzalas
Pra servirem os pastéis

13
Desde que, sendo fiéis
E com medo que os roubassem
Nas alcovas desnudassem
Pra conferir os anéis.

14
Mas creio que divaguei,
Vou voltar pro Imperador,
Da zona também o rei
Coroado sem favor.

15
Pra que sigilo se tenha
E pra que ninguém se afoite
Tinham eles uma senha,
Pois mascarados, de noite

16
Em corredores escuros,
Para irem “a las putas”
Como diziam "los turros"
Com quem já tinham disputas.

17
Mas acontece que Andrada,
Um sujeito tão solene
Que queria ter o leme
De uma barca naufragada

18
Mantinha os seus espiões
Que lhe fizeram resenha
Das noites dos mandriões
E lhe transmitiram a senha.

19
O Zé Bonifácio, então
Mandou prender o Chalaça
E enchê-lo de cachaça
Ali mesmo, num porão.

20
E com a máscara e disfarçado
Com as roupas do finório
Foi encontrar c’o potentado
E seu segredo ilusório.

21
E correram pra a espelunca
Onde o grande conselheiro
Foi então jovem e fagueiro,
Coisa que não fora nunca.

22
E houve até quem o amasse
Sem que o Patriarca ousasse
Retirar o seu disfarce
Por mais que se lhe tentasse.

23
No outro dia, notou-se
Que uma dama com um véu
Foi recebida e portou-se
Como se fosse no céu,

24
No gabinete, em palácio,
E naquele mesmo dia
Nova baronesa havia
Por conta do Bonifácio!

FIM

05/12/2008

_________________________

Nota
Queridos eventuais leitores meus, reparem na data: este cordel acaba de nascer. Aconteceu vir de um jato, esta manhã, para surpresa minha, pois não esperava um surto assim, repentino de inspiração humorística, e ainda por cima com tema tão inusitado. Foi muito gratificante... (Guilherme de Faria)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Romance da Milícia do Reino (cordel de Guilherme de Faria)


Romance da Milícia do Reino
(cordel de Guilherme de Faria)

1
Parecendo até chiar
Como chapa de fogão
A planura do lugar
Era só desolação.

Atravessando a caatinga
Uma fila desvalida
Cercada de urubutinga
Era de longe seguida

3
Por este seu cordelista
Que testemunhou o apelo
E até hoje o avista
Em sonhos de pesadelo.

4
Liderando aquele bando
Tava o vaqueiro Altamiro
Que tinha fama de mando
E de muito bom de tiro

5
No entanto carregava
Uma Bíblia empenada
E gasta, que ele ostentava
Brandindo como uma espada.

6
É verdade que o vaqueiro
Não a podia ler
Mas também é verdadeiro
O livro sagrado ser.

7
Altamiro virou então
E gritou pro povo em seguida:
“Gente, gente escolhida
E fiel do meu Sertão,”

8
“Deus me soprou o rumo
Da sua tropa leal.
É só não perder o prumo
Chegaremos no local.’

9
“Vamo então arrodiá
O cerro do Encantado
Até a porta encontrá
Do grotão acastelado”

10
“Onde no centro da Terra
Nosso rei Dom Sebastião
Tá preparando a guerra
Que trará a Redenção.”

11
“Ali na Sala do Trono
Ele esperando está
Esta milícia sem dono
Que a seus pés ajoelhará.”

12
“Então vamo se juntá
Às suas grandes hostes
Para a guerra começá
Pra isso chamados fostes.”

13
“Dom Sebastião cuidará
De instalar grande reinado
Em sua glória e será
Da Justiça o seu primado.”

14
“Pra isso vamo deixá
A nossa casca terrena
Quem me seguir verá
O rei no exílio, sem pena.”

15
Dizendo isso tirou
A luger da cartucheira,
À sua fronte apontou
E atirou bala certeira.

16
Seu corpo caiu pro lado
E a arma ficou no chão
Sob o olhar espantado
Mas sem grande comoção

17
Daquele povo bisonho
Que ficou ali parado
Sem nem parecer tristonho,
Apenas paralisado.

18
O livro santo jazia
No chão, meio respingado,
Um triângulo fazia
Para o corpo estacionado.

19
Foi então que um manquitola,
Segismundo chamado
Pegou o livro manchado
De sangue, mais a pistola

20
E botou-a na cintura
Enquanto brandia no ar
A sagrada escritura
Até o povo aclamar

21
Recomeçando a andar
Com o manquinho na frente
Num passo bem diferente
Todo mundo a balançar.

FIM
29/02/2003

Romance do Bamburro*
Capa do folheto de cordel "Romance do Bamburro', com xilogravura de Guilherme de Faria

(cordel de garimpo de Guilherme de Faria)

1
No rio do Ouro, Aprígio
Bateiava sem preguiça
Na rotina de litígio
Com as águas da cobiça.

2
A cada dia, na lida
De ciscar em desvario
As promessas de sua vida
Mas não as daquele rio.

3
O mesmo rio sovina
Que vinha regateando
Com a sorte e até matando
Numa espécie de chacina

4
Que já vinha há muito tempo:
Quando dava uma pepita
Cobrava em morte ou desdita
Com juros de contratempo.

5
O garimpeiro afinal
Pousou a sua batéia,
Furou ela com o punhal
Que fincou ali na areia

6
E levantando o olhar
Cobriu os olhos c’o punho
E começou a gritar
Perante o meu testemunho:

7
“Ó rio da minha desgraça!
Por ti meus filhos larguei
E a mulher, que enganei
Dizendo que sentei praça!”

8
"Tua promessa em meu sonho
Era falsa, afinal:
Não trago neste embornal
Senão fracasso medonho."

9
“Tô aqui faz muitos anos,
Tu nem mesmo me deixou
Meus amigos e os manos
Que o diabo bateiou.”

10
“E a poeirinha de ouro
Que me deste, tô aflito,
Não dá, desculpe o desdouro,
Para um dente ou um palito”.

11
“Nem um anel, nem um brinco
Pra Letícia, menininha
Que deixei com quase cinco
E que deve tá mocinha.”

12
“Tu me enganou demais!
Toma aqui minha batéia
Furada, pra que não mais
Tenha as pedras por platéia!”

13
“Guarda teu ouro maldito
Que volto pra minha tapera
Pra implorar perdão e o pito
Da Leutéria, que me espera!”

14
E tendo falado isso
O garimpeiro afastou
Deu as costas e arretirou
Encerrando o compromisso.

15
Já montado no jerico,
Veio o grito do Calixto:
”Ouro! Ouro! Vejam isto!
Bamburrei! Eu tô rico!”



16
“Aqui, debaixo ela tava
Dessa batéia largada!
Uma pepita arretada
Que por certo nem notava”

17
“Não fosse esse punhal
Bem ali como um sinal.
Tem nêgo bobo ou louco
Que enxerga muito pouco...”

18
“Tem o tamanho de um ovo
Daquela galinha da estória...
Óia, gente, óia de novo,
Já retirei a escória!”

19
Aprígio continuou
Esporeando o burrico
E nem o rosto voltou
Pra olhar o novo rico.

20
Sem hesitar enfrentou
A corrente que rolou
De gente, que o rio chamava
Mas não mais o enganava.

21
O caminho encontrou
Co’a alma leve de novo
E pra casa retornou
Com pena daquele povo.

FIM

28/02/2003


Nota
* bamburro- (ou "bambúrrio"(pronúncia mais antiga), esta palavra, típica do garimpo, designa um achado, na batéia, em pepita de ouro ou em diamante grande, que faria o garimpeiro enriquecer de repente, da noite pro dia. Todos sonham exatamente com isso.

sábado, 29 de novembro de 2008

Romance da Noite de Guarda (cordel de Guilherme de Faria)


Cordel de autoria de Guilherme de Faria

1
Noite clara sobre o campo,
Uma noite para rede,
Para oiá pra pirilampo
E beijá pra matá sede.

2
Dava pra ver o amarelo
Das espigas ao vento
Mas longe do desvelo
Do abraço da Adivento.

3
Nós tava no milhará
Eu mais Ezequié
E ainda dois camará
A serviço do coroné.

4
Um Chamado Dijaniro
E outro, o Zé do Pinho
Que eu conhecia pouquinho.
O primeiro mal refiro.

5
O João da Cunha de nome,
Era o nosso patrão,
Grão-chefe deste sertão,
Poderoso, de renome.

6
Nóis tinha de montar guarda
Na divisa, ali, cercada.
Arami vai, arami vorta
Na divisa c’uma horta

7
Do coroné Ludugero,
Um Átila deste sertão
Que sem perguntar se é vero
Não respeitava mourão.

8
A divisa já matava
Há mais de treis geração:
Haja quem raso cava,
Haja tiro, haja mourão.

9
A hora eu via não
De vortá para a famía.
Home neste sertão
Só na briga tem valia.

10
Eu tinha deixado a Divento
C’os menino e embuxada.
Tudo magro e catarrento
Esperando a farinhada

11
Mais feijão e rapadura
Se desse certo a empreitada
E sobrasse da fartura
Da festa da jagunçada.

12
Aí a primera bala
Zuniu fininho “pium”
Que nem marinbondo fala
Na oreia de qualquer um.

13
Daí a poco o milhará
Estralava feito espinho
Quando o fogo vai pegá
Para abrir nosso caminho.

14
Era bala de lá
E outra bala de cá.
Óio e vejo o Dijaniro
Garrado num pé de mio.

15
De repente entendi
Que ele já num tava ali:
Devagarinho tombando
Como que fosse rezando

16
Com as mãos em oração
Cum vela de devoção
Que era só uma espiga,
Sua derradeira amiga.

17
E tombô teso então
Levantando a poeirinha
Que somente eu vi, no chão,
Que “obeservação” eu tinha.

18
Então senti o ferrão
Do marimbondo na coxa.
Ajoelhei naquele chão
Pra rezá pra vaca moxa,

19
Quer dizê: sem nem lembrá
De uma boa oração,
Que hora era de atirá
Ou deitá naquele chão.

20
Mas Zé do Pinho chegô
Na hora e me arrastô
Pelo milhará afora
Como se eu fosse uma tora.

21
C’uma força de anjo
Amparava no sovaco
Este tamanho marmanjo
Que tava ali feito um saco.

22
E abrindo trilha a facão
Tentava chegá no meio
Do curral pra ter ação
E respondê tiroteio.

23
Acabô pondo nas costas
Este traste aqui que eu era.
O home tava uma fera
E atirava inté as bostas

24
Das vaca que tava ali
Naquele curral sangrento,
Mais o sangue deste aqui
Que já tava meio lento.

25
Mas eu tinha (e sou certeiro)
Minha espingarda na mão
E chegando no chiqueiro
Deitamo atrás de um capão

26
Enorme, que amortecia
As bala na sua gordura.
Nunca vi dois caradura
Fazê isso c’uma cria!

27
O bicho grunhiu de dá dó
Mas depois do berro ouvir
Pudemo então distinguir
O que era tiro só.

28
Fazendo fogo cerrado
Atiramo adoidado
Por mais de uma hora ali
Num cheiro que nunca vi,

29
Atolado ali na merda,
No sangue e na gordura,
Deitados como quem herda
De tiros essa fartura.

30
Até os jagunços feros
Do coroné João da Cunha
Expulsá os ludugeros
Do coroné dessa alcunha.

31
Saímo então mais sujo
Que uma mula embosteada
No meio da gargaiada
Da jagunçada do cujo.

32
O cumpadre Zé do Pinho
Tinha de sê o padrinho
Dessa minha fia muié:
Eleussuína da Fé

33
Que nasceu naquela noite
De tiros como um açoite.
Eu mais o Zé do Pinho
Tivemo esse gostinho.

34
Agora que tamo em cima
Vamo chamá a Dafé
Que é nome bonito e rima
Para servir um café.

FIM

28/02/2003

quarta-feira, 19 de novembro de 2008


Romance do Leito Seco

Cordel de autoria de Guilherme de Faria


1
Seu moço, aqui neste leito
Outrora corria um corguinho
Que ainda trago no peito
Com aquele barulhinho

2
Fluindo nos pedregulhos,
Bom pra dormir e sonhar
Levando consigo os entulhos
Da memória e do penar.

3
Construí ali meu rancho
Onde um toco ainda se avista.
Só não era muito ancho
Que sempre fui realista.

4
A Raquel transpôs a porta
Bem no dia do Divino
Por isso a memória aporta
Toda vez que bate um sino

5
E marco dia por dia
A distancia da partida
E a lembrança da alegria,
Minha ventura perdida.

6
Trabalhei como Jacó
Sete anos de vaqueiro
Pra comprá-la, veja só,
Do seu pai, um merceeiro.

7
Dei a ele meu gibão
Meu cavalo e as perneiras.
Pra me prová, sêo Labão
Queria até as esteiras,

8
Meu laço de couro trançado
Minha sela e meu facão;
Queria até o esperado
Primogênito varão

9
Pra o distrair na velhice.
Aceitei e abri mão.
Qualquer coisa que exigisse
Eu cedia por paixão.

10
Nossa festa então juntou-se
Com a festa do Divino
E era justo que assim fosse
Nosso sonho era o mais fino.

11
Nunca se viu casal
Mais feliz nesse caminho
Vestida branca de cal
E eu no meu terno de linho.

12
Seus olhos como turquesas
Cintilavam nessa noite
De tantas fogueiras acesas
Na memória, como açoite.

13
O sanfoneiro era tão
Danado de bom, coitado,
Que demoramo um tempão
Junto ao povo convidado.

14
Afinal entramo em casa
Preparada como um ninho
Na porta havia um raminho
De arruda, que agora abrasa.

15
Pois que a pobre Raquelinha
Não havera de acordar
Do seu leve ressonar
Quase de manhãzinha.

16
Seu coração foi parado
De alegria e emoção
Nesse encontro destinado
Sobre o Raso de um colchão.

17
Seu coração em delírio
No seu peito delicado
Branco, branco como um lírio
Não cabia enjaulado

18
Buscando logo voltar
Aos doces montes do Hebrão
Que era o vero Sertão
Da raça crepuscular.

19
Assim foi com antepassadas
E sua mãe, desditadas,
Mas não antes de embuchadas,
De paridas, festejadas,

20
Mas não sem semeadura
E da colheita, a fartura
Que o ninho da gente espera
Pra deixar de ser tapera.

21
Só soube disso, atrasado,
Quando fui cobrar de golpe
Pelo menos meu Pintado
Pra sair doido, a galope

22
Por este mundão de Deus
Ou do Diabo, ou dos dois,
Para rever estes céus
Só vinte anos depois.

23
O riacho está sequinho,
O rancho desvaneceu
Queimado por um padrinho
Na noite em que sucedeu,

24
Quando uns gritos de infeliz
Ecoaram nesta pedra
E assombraram esta raiz
Que no leito seco medra.

25
Deixei a vida de lado,
Deixei até minha fé,
Desacreditei do fado
Desacreditei do amor até

26
Moço, agora vou partir
Em direção ao Levante
Pra de novo prosseguir
Tal qual o Judeu Errante...


FIM

sábado, 15 de novembro de 2008

Romance do Laço de Amor Eterno (cordel de Guilherme de Faria)


Romance do Laço de Amor Eterno

Cordel de autoria de Guilherme de Faria

1
Tô indo pro São Francisco
Com rapadura e feijão
Para um comércio sem fisco
Que sobrou neste sertão.

2
Amunte aqui ao meu lado
Neste primeiro jegue
Que a tropa inteira segue,
Que tá mais aliviado.

3
Como é que um adoutorado
Como o senhor tá aqui
Parecendo desgarrado
Desnorteado de si?

4
Vou lhe dizer, cumpadre,
Que quando vi vosmecê
Na frente me aparecê
Fiz até “creio em Deus Padre”.

5
Vendo essa fatiota,
Braboleta no pescoço
Pensei que ia ter um troço
E pisquei feito idiota.

6
Como é que por aqui anda
Home de estirpe fidalga
Perdido aqui nesta banda
Que o calor e o medo salga?

7
E o candidato a presunto
É inté um professor...
De quê, se mal lhe pregunto?
De estória, ah! Que primor!

8
Vosmecê podia contá
Arguma pra começar,
Que tou tão necessitado
De estória pra me arejar!...

9
Do lado do Chico, atrás
Tem um cantador afamado.
Não pára quieto, coitado
Coiendo estória demais.

10
Vevi correndo o sertão
Onde estória é um fartão.
Pra quem é do ramo, então?
Mas contá é que é a questão...

11
Se nomeia João Jiló
E sem perguntar se quero
Me contou um caso vero
De horripilar fiofó.

12
O senhor me escute então:
Pois havia um coroné
Grão-Chefe deste sertão
Que tinha uma fia muié.

13
Queria que ela casasse
O mais depressa e mudasse.
Deixava ele preocupado,
Que olhava demais pros lado.

14
Seu nome era Meluzina
Mas chamada Luzinete
Que esse nome de vedete
Soava meio de gringa

15
Por causa dos óio azul
Que o povo nunca viu tanto
Bonita como um espanto
Se olhada de norte a sul.

16
Até que chegou um dia
Por ali pra trabaiá
Um peão sem moradia
Mas bonito de estranhá.

17
De oio azul combinando
C’os da moça patroinha,
Língua de gringo falando
Sabendo mais que a gentinha.

18
Em terra de cego quem
Aquele oio azul tem
Não é rei mas causa inveja
No que olhe dentro e não veja.

19
Foi, que bateu na entrada
Aqueles oio azulado
Saiu faísca pros lado
E a paixão fez sua morada.

20
Logo junto o par fugia
De noite, muntando até
Da cavalhada o filé,
Que modéstia não havia.

21
Que já tando desgraçado
Era melhor jogar arto,
Que quem lhe ia agarrado
Merecia muito trato.

22
Mas num chegou muito longe
Que o coroné atiçou
A jagunçada e cercou
Os noivos sem véu nem monge.

23
E o cerco que prometia
Fumaça e bala adoidado
Se esvaiu silenciado,
Que era o que se temia...

24
Nem um pio de bacurau
Nem grito de sariama:
Um silêncio sepulcral
Que a Natureza reclama,

25
Pois num outeiro cercado
Pendia junto, enforcado
Na mesma corda, enlaçado,
O parzinho malfadado.

26
Foi tão difícil soltá
Aquele laço apertado
Que o pai desesperado
Resolveu junto enterrá.

27
Pru mode seu coração
Pedir decerto perdão
De tanto sofrer em vão,
Pra nada, ou pior: pro chão.

28
Não se esperava o desfecho,
Que até mais de um peão
Ficou ali nesse trecho
E nem voltou c’o patrão,

29
Meditando nesta Vida
E na Sorte que nos pune
C’o mesmo laço que lida
Com a Morte que nos une!


FIM
13/07/2002

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

RECITAL DE CORDEL DO GUILHERME DE FARIA - CONVITE A TODOS


Kit-Cordel, de Guilherme de Faria



RECITAL e Palestra do

GUILHERME DE FARIA
artista plástico e poeta
sobre seus CORDÉIS no

"CANTO DAS LETRAS"

Compra e venda de
Livros, CDs, LPs, DVDs

Rua Augusta, 2.244
Tel. 3081-2120

E-mail: sebocantodasletras@yahoo.com.br



SEXTA-FEIRA, dia 21 de NOVEMBRO, a partir das 18:00hs

ROMANCES DE CORDEL

Recital dos cordéis de Guilherme de Faria com palestra do autor sobre as origens do cordel nordestino e mitos do Sertão.
O autor declamará também o pouco conhecido poema do romanceiro medieval anônimo português, “A donzela que foi à guerra”, graciosa peça trovadoresca que certamente inspirou Guimarães Rosa na criação do seu personagem Diadorim, do grandioso romance "Grande Sertão: Veredas".
____________________________________

Estarão expostos e à venda dois Kit-Cordel (belas caixas de madeira com dez folhetos ilustrados (cada uma) pelo autor, que estará autografando os exemplares eventualmente adquiridos.
Haverá também cordéis avulsos para aquisição, a preços módicos.

Também estarão expostos e à venda gravuras (xilos) de cordel do autor e um Pavão Misterioso, objeto de arte, de madeira, projetado e construído pelo autor.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Romance do Tropeiro (cordel de Guilherme de Faria )



Romance do Tropeiro
(cordel de Guilherme de Faria)



1
Esta é a estória de um tropeiro
Chamado Salustiano
Que moço, mas não lampeiro,
Morreu não faz nem um ano.

2
De toda a sua curta vida
Só sobrou um episódio,
Que na andança de sua lida
Nunca conheceu o ódio,

3
Percorrendo esta chapada
Que ainda não tinha estrada
E contou-me com candura
Sua estúrdia aventura.

4
Levava uma tropa de mula
Para vender em Cercado
Por inteiro ou no picado
Pr’um tal de sêo Abdula

5
Mas eis que encontrou então
No meio dessa caatinga
Um tipo de um barbudão
Cercado de urubutinga.

6
Vestia um camisolão
E andava c’um cajado
Tangendo neste sertão
Todo um invisíve gado

7
Os óio meio encovado
Pediu um pouco de água
A boca como uma cova,
A goela como uma frágua.

8
Sendo moço destemido
O nosso Salustiano
Não fez de desentendido
E nem lhe apontou um cano

9
Viu que era um louco de Deus
Coisa comum no Sertão
Entanto que sua visão
Tava mais para um adeus.

10
Estendeu-lhe a caneca
E pegando o seu odre
Encheu a dose do pobre
Como o tributo da seca.

11
Mas eis que o peregrino
Revelou seu desatino
Derramando sua porção
Todinha naquele chão.

12
A terra dura engoliu
Sem deixar nenhum vestígio
Que o sol batia de rijo
E o pó fez que nem viu

13
O tropeiro deu um pulo
Gritando Afe! Ó xente!
E picando o seu mulo
Só tratou de andar pra frente.

14
Encontrou bem lá pr’ adiante
Um menino e então parou
Que pediu água e imitou
O gesto do viandante.

15
Só deixando indignado
Pra que um tropeiro afugente
Jurando ter terminado
Seu trato co’aquela gente.

16
O tropeiro se afastou
Daquele pobre estrupício
E para trás nem olhou
Pra não lembrar do esperdício.

17
Eis que bem mais pra frente
Lá onde o sol bate rijo
Que nunca lá se viu gente
Que desperdiçasse mijo

18
Avistou ao longe um vulto
Diferente, de verdade.
Pondo a mão como uma aba
Definiu uma beldade

19
Tão espantosa e fatal
Que beleza no Sertão
Só no Juìzo Final
Que trará Don Sebastião

20
Mas a bela sertaneja
Quando se aproximou
Deslizou sua forma andeja
Que ele mal enxergou

21
Que só o que o moço via
Era a água da paixão
Que dos olhos lhe escorria
Que essa umedecia o chão

22
Mas a bela então passou
Sem nem deixar a certeza
De que mesmo a avistou
Nesse mar sem correnteza

23
Dessa Caatinga e da lida
Que não permite a beleza
Senão uma vez na vida
Nesta Sina sertaneja.


FIM

16/11 2002

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Romance do Alcoviteiro do Rei


(Cordel de autoria de Guilherme de Faria )

1
Estou, seu moço, a serviço
De um coronel já sem viço:
Talarico é o seu nome
E de rico, seu renome.

2
“Das Posses” é a sua herdade
Onde me cabe servir
Pra aumentar a liberdade
Que ele tem de oprimir.

3
Mas o homem é solitário
Como um despossuído
Só fazendo o inventário
Do que entrou e foi perdido.

4
Me pergunta vosmecê
Em que serviço estou.
Não devia de dizer,
(Foi o que recomendou...)

5
Mas vou lhe contar reservado,
Para haver entendimento:
É negócio de noivado
Com vistas de casamento.

6
Pra isso fui destacado:
Achar virgem encomendada
Que seja bela e prendada
(Já se viu que estou ferrado...)

7
Essa missão me chateia
De tão difícil, de tão...
Mulher bela no Sertão
Já tá casada, ou tá feia.

8
Não ponho no fogo a mão
Por virgem sem certidão
Que eu mesmo não tenha visto
(Me desculpe dizer isto...)

9
E a pérola dessa missão:
Se eu não volto com a donzela,
As minhas, na falta dela
Jogadas pros porcos vão...

10
Vi uma loura, artigo caro
Dessas sem parafina
Mas fui ver o bicho raro
E era uma Messalina.

11
Suponho que o coronel
Quer moça de olhinho baixo
Dessas que comem pastel
Sem tocar o contrabaixo

12
E que ao ouvir corem,
Seu nome na boca de um homem.
Artigo em extinção...
Sei como as coisas são.

13
Mas vou abrir a tramela:
Já encontrei a donzela
Bela e pura como freira
E cega como toupeira.

14
Espero que o coronel
Veja as coisas como eu:
Pode haver maior pitéu,
Quem escreveu e não leu?

15
Tão cega a princesa é
Que por isso não verá
O sapo que o coronel é
E até se comoverá

16
Com os versos que ele fizer
Já que o homem è jeitoso
E poeta quando quer,
Embora feio e maldoso.

17
Além disso ele é romântico,
( que os bandidos sabem ser ),
Pois tem o poder semântico,
Já que tem todo o poder.

18
Se lhe der flores do mato
Já no primeiro dia
Ela, com tanto olfato,
Por certo apreciaria...

19
Bem... estou imaginando.
Na verdade tenho medo.
Continuo procurando,
Tô achando meio cedo.

20
Tou mais inclinado por ela
Pois já não agüento a tranqueira
De tanto pai de donzela
Cevando porca e porqueira

21
Pr’um casamento arranjado
De conveniência e dourado
Mesmo que depois, riscado,
Tal ouro fique chumbado.


22
Pobrezinha, só se for
Linda e escorrendo mel
Assim disse o coronel
Com aquele riso sem cor.

23
Tá difícil, e a ceguinha
Ainda é o melhor partido
Pois não é coisa mesquinha
Tal graça, sem um sentido.

24
Até já fiz o pedido:
Cantei pra ela o patrão
Em versos com violão
E prosa, mais comedido.

25
Ele ficou parecido
Com um herói de bordel,
Quero dizer, de cordel,
Remoçado e redimido.

26
Tirei-lhe os dentes de ouro,
Os cabelos lhe botei,
Só chifres não coloquei
Porque isso é duradouro.

27
Hei de levar a anjinha
Seladinha, seladinha.
Quem gosta do meu pescoço
É ainda aqui este moço.

28
Mas eu agora constato:
Hoje mesmo me casava
E até me apaixonava
Pela ceguinha, de fato.


29
Se eu não fosse a alma perdida
Que o coronel cozinhou
Na sua cozinha maldita
Desde qu’ele me comprou.

30
Era a chance de encontrar
E rever o tal menino
Que eu era antes de entrar
Naquele antro “malino”


31
Mas vosmecê me releve,
Que essa prosa e a cachaça
Embora pareça leve
Antecipou a ressaca.

32
E essa pinga com torresmo
Me deu uma pena danada.
Mas acho, coisa engraçada,
Que é pena de mim mesmo.


FIM

19/05/2002

Romance do Diabo da Borda da Mata


(Cordel de Guilherme de Faria)


Na Borda da Mata, sem rumo
Malvino vivia a vida
Pois não recuperava o prumo
Que lhe dava a falecida.

O viúvo inconsolável
Candidato a suicida
Achava quase impensável
Mudar seu tipo de vida.


Perto de um desfecho trágico
Surgiu no fundo do espelho
Uma espécie de Mágico
Sem cartola e sem coelho.


Viu depois o homem, na feira,
Que não lhe disse palavra.
Durante a semana inteira
Sentiu que o vigiava.


Até que num impasse
Na borda daquela Mata
Encontrou-se face a face
Com aquele diplomata.


Que afinal disse a que veio
Usando telepatia
Trazendo por esse meio
O recado da Maria.


“Malvino,- ela ditava-
Vou tirar você da bosta.
Mas pra isso precisava
Vender o que você gosta.


Aceite qualquer dinheiro
Pelo sítio e a capela
E como esse cavalheiro
Bote um cravo na lapela.


Mas que seja de alfaiate
O terno que ocê arremate
Com o resto faça um lance
Naquele Clube da Chance.


Vou lhe soprar um número
Bem defronte da roleta
Você jogue nesse número
Não deixe que outra se meta,


Porque vão lhe dar palpite
Só querendo comissão
Por isso não hesite
E não ouça uma outra não.”


Malvino se viu cercado
Bem na frente da roleta
Pois de fichas carregado
Atraía borboleta.

Foi então que ouviu por dentro
Instrução onde jogar
Todas as fichas no centro
E o 6 para começar.


A bolinha então correu
Pipocando de lugar
Malvino quase morreu
Vendo-a no 6 parar.


Três vezes no 6 jogou
Três vezes o 6 ganhou.
As mulheres se espremiam
Para ver se com ele iam.


Só faltou subir no pódio
Cercado pelos dois vices
Chamados: Inveja e Ódio
Seguido das Sovinices.


A riqueza lhe grudou
Depois que estourou a banca
De tanto que prosperou
Sua cabeça ficou branca.


Tendo sido abandonado
Por todos, desesperado
Encontrou-se com o tal
Bem no fundo do cristal.


Com o cabelo cor de prata
Parecido com o seu,
O Famoso Diplomata
Afinal apareceu


E lhe disse com voz grave
“Malvino, apesar do entrave
Que a sua alma produz
Maria ainda lhe conduz.


E quer lhe dar refrigério:
Com seu terno de alfaiate
Vá até o cemitério
Com um cravo, de arremate


Na lapela, como outrora
De manhã antes da aurora
E diante da lousa fria
Você verá sua Maria


Trazendo nova instrução
Que lhe servirá de guia
Pra recuperar o tesão
E salvar sua alegria.


Assim, seguindo os mandados
Logo que a aurora chegou
Era dia de Finados
E o Malvino se finou.


O corpo foi encontrado
Em cima da laje dura,
Mais duro que rapadura
E de dinheiro cercado.


O povo que então chegava
Sitiou nosso janota.
Disputou nota por nota
Da pilha que o cercava.


Mas o que mais me dá dó:
Sem o terno de alfaiate
O corpo nú, de arremate
Um cravo no fiofó!
FIM

O KIT-CORDEL de Guilherme de Faria


O KIT-CORDEL (aberto, com dez folhetos de cordéis de minha autoria). Ao todo a obra ROMANCES DE CORDEL é constituída por sete caixinhas de madeira(kits) cada uma com rótulo de xilo diferente e apresentando ao todo setenta estórias diversas. Elas têm um original fecho de cadarço de couro. Em São Paulo elas podem ser adquiridas (por apenas R$150,00 cada) na Livraria da Vila(da Alameda Lorena, nos Jardins, e da Casa do Saber na rua dr. Mario Ferraz, no Itaim-Bibi), também na loja Calligraphia, na rua Avanhandava e na Loja Art-Plex, do Instituto Moreira Salles (3° piso do Shopping Frei Caneca). Em Santo André, na livraria e sebo Alfarrábio.

Romance do Narciso do Sertão (Cordel de Guilherme de Faria)




1
Já que o doutor perguntou
Sobre o pobre do Jacinto
Vou contar ao seu Doutor
O que penso e o que sinto.

2
Como o doutor se recorda
Olhando daqui o açude
Aquela casa, na borda,
Não tinha vicissitude.

3
Para um moço do sertão
Era belo em demasia:
Pro Jacinto não havia
Outra preocupação.

4
Era uma flor de talude
Pras moças que o avistavam
Na beira daquele açude
E elas o vigiavam

5
De longe, porque a beleza
Não produz somente amor:
Impõe um certo temor
Quando não produz tristeza.

6
Entretanto, é meu palpite:
Sem gestos amaneirados
(que isso nem se admite
aqui por estes lados),

7
Parecia se orgulhar
Em bastar-se só a si
Não querendo namorar
Nenhuma moça daqui.

8
As moças até suspiravam
Quando de longe avistavam
Perambulando ocioso
O pobre moço vaidoso.

9
A Dadá, que era uma delas
Destrancou suas tramelas
Seguindo-o meio escondida,
Temendo não ser percebida

10
Atrás de toco ou mourão,
Olhando e dando gritinhos
Pra ver se chamava a atenção
Fingindo uns desmaínhos.

11
Jacinto nem percebia
E continuava sonhando
Solitário em sua vigia,
A água do açude olhando.

12
Não demorei a supor
Que o Jacinto em seu “complecho”
Tava mais pra outra flor
Que olha pro seu “reflecho”.

13
Como aquilo agoniava
Podia ser percebido
Que ele não reparava:
Era muito distraído.

14
Um dia Dadá decidiu
Declarar-se, toda amável.
Coisa rara ou infantil
Eu diria, impensável:

15
“Já lhe conheço , Jacinto,
De longe e gosto de si.
Vou lhe dizer o que sinto:
Serei sua agora e aqui.

16
Sua voz deixa eu escutar
Mesmo que seja tristonha
Nem que for pra me xingar
Que perdi toda a vergonha.”

17
Com o ar triste e quedo
O rapaz só suspirou
Virou-se e se retirou
Sem nem dizer “azevedo”.

18
Ela quis seguir-lhe a pista
Mas ele desceu o talude
Num canto daquele açude
E ela o perdeu de vista.

19
Depois disso, a coitada
(dizem as Madalenas)
Vagando foi avistada
Cantando umas cantilenas.

20
Até que se aquietou
E ela nunca mais falou
Palavra, e só repetiu
Sempre a última que ouviu,

21
Parecendo o divertir
Das meninas do sertão
Que brincam de repetir
Pra irritar o irmão.

22
O Jacinto, examinado
Por esse mesmo doutor
Que está aqui ao meu lado,
Se se recorda o senhor,

23
Fez-lhe um diagnóstico
A meu ver meio agnóstico:
O povo diz “de pressão”
Achando o sangue, a questão.

24
Mas o Jacinto, coitado
Uma noite entrou no açude
Até onde saber pude,
Nunca mais foi encontrado.

25
O povo deste sertão
Diz que foi sucuri,
Cobra grande qual vagão,
Mais rara do que saci.

26
Mas pensando descobri
Que o moço era orgulhoso
Demais pra viver aqui
Entre esse povo feioso.

27
O ser humano (é minha crença)
Já é feio de nascença,
E beleza de gente é extremado:
É coisa de Deus ou Diabo!


FIM


25/03/2002

sábado, 25 de outubro de 2008

Romance do Avarento (cordel de Guilherme de Faria)


1
Esta é a estória
De um cidadão avarento
Negando a todo momento
E vivendo de vanglória.

2
Mas tinha filosofia
Que até hoje desafia:
“Antes ser, não parecer
Do que parecer e não ser.”

3
Só que o pobre equivocado
Parecia se orgulhar
De viver depauperado
De tanto só poupar.

4
Seu nome era sêo Zuza
E era um bom açougueiro
Também bom pai, e caseiro,
Nada de vida confusa.

5
Não deixava faltar nada
Que fosse fundamental
Mas desde que a filharada
Se limpasse com jornal.

6
Usava o Diário e a Folha
Que não lia no banheiro
Já que não usava rolha
E papel custa dinheiro.

7
Quando uma filha, a Eliana
Lhe pedia guaraná:
“ Bebe leite, sua estróina
Que é mió e não faz má!'

8
Nunca quis forro e forró
Só pra economizar,
Mesmo que caísse pó
Na panela a cozinhar.

9
Também não acendia vela
Para santinho no altar
Pois vela queima e revela
Tendência a se gastar.

10
Era de lenha o fogão
Com a pilha no quintal
Com direito a escorpião
Que ele matava a pau.

11
Assim, a sua mulher
Pilotou a vida inteira
Fogão a lenha e peneira
Pilão e nenhum talher.

12
A sua "tenção" na vida
Até parece coisa vã:
Não caísse na comida
Só aquele “picumã”.

13
Nunca teve geladeira
Nem mesmo televisão
Pois “é caixa gastadeira
De vista, tempo e emoção”.

14
Colchão era de capim
“Que é barato e anatômico.
Basta ver que o burrim
É bicho muito econômico”.

15
Por isso não tinha carro
E muito menos charrete
“Em andar a pé me amarro
E também não pago frete.”

16
Assim passaram-se anos,
A filharada cresceu
E ao menos aprendeu
A ler com os pobres ânus.

17
Depois de tudo casado
Concertou o seu portão
Já que o fecho tão forçado
Já não ia ser então.

18
Viveu a vida à mingua
De medo de privação
Nunca pecou pela língua
E também nunca abriu mão.

19
Quando morreu foi chorado
Com alívio e emoção
E mais depois de encontrado
De dinheiro a coleção,

20
Pois guardou para o Coveiro
Debaixo do colchão,
Que serviu pr’um bom enterro
Num bonito d'um caixão.

FIM

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Romance da Dupla Sertaneja, ou A Valsa de Mefisto (cordel de Guilherme de Faria)




Romance da Dupla Sertaneja, ou A Valsa de Mefisto


Cordel de autoria de Guilherme de Faria


1
Agora vou arriscar
Pois é risco, sem engano,
Uma estória de lascar
Com um final faustiano.

2
Os irmãos Malta e Maltinha
Formavam dupla famosa
Cantadores de Serrinha
Com carreira gloriosa.

3
Eles eram excelentes
Na parcela e nos repentes
Martelo, galope e “tropel”,
E ainda faziam cordel.

4
Mas sendo gêmeos os irmãos
E tocando a quatro mãos
As gentes desconfiavam
Que o pensamento trocavam.

5
Que a perfeição do repente
Com respostas afiadas
Se devia a uma só mente
Com as violas trocadas.

6
Isso os aborrecia
E levava a um impasse
Que é que o povo queria?
Que simplesmente um errasse?

7
Nasceram ressentimentos
Que os tornavam esquisitos
E mesmo “arrependimentos”
Que os punham muito aflitos

8
Perdiam o amor do povo
Mas o que era ruim de ver:
Perdiam como um estorvo
O que é pra devolver.

9
Até que numa peleja
Na Usina Fé Dourada
À saída , na cerveja,
A dupla foi abordada.

10
Um sujeito mediano
Com um tipo de italiano
Jeitoso como um ministro
Mas com algo de sinistro.

11
Seu nome : Antônio Mefisto,
(disse na apresentação),
No meio da testa, um cisto
Que chamava a atenção.

12
Começou por proclamar
Enorme admiração
Pela dupla em seu cantar
Fosse compreendida ou não.

13
Convidou-os sem agenda
Para o acompanhar
A uma festa em sua fazenda,
Que estava pra começar.

14
Hóspede a dupla seria
Contratada na surdina
Pra fazer a cantoria
Para “gente molto fina”

15
Aceitaram encantados
Vendo o rolo de dinheiro:
Tinha dólar e cruzeiro
À escolha dos convidados.

16
Prometia muito mais:
Restaurar-lhes o prestígio
Gravando em trinta canais
CDs e fitas de vídeo.

17
O nome de cada irmão
Seria reintronizado
No pedestal do Sertão,
Assim imortalizado.

18
A glória lhes sorriria
Bastando que fosse o agente,
Empresário do repente,
Que antes “planejaria”.

19
Entraram num carrão
Com as violas e tudo.
O motorista, um negrão
De apelido “Veludo”.

20
Durante aquele trajeto
Antônio falou do projeto:
Cantarem certa poesia
De sua própria autoria.

20
Mostrava, desinibido,
Seus versos àqueles dois.
Malta olhou constrangido,
Passou a Maltinha depois.

21
“Seu Mefisto,”- disse Malta-,
Talento ao senhor não falta,
Seus versos merecem louvores,
Mas são um pouco amadores...

22
Se um retoque a gente dá,
Um pouco aqui e acolá,
Não ficava nada mal
E quase profissional.”

23
“Nem pensar"-disse Mefisto-
“Assim não posso aceitar,
Eu quero que cantem isto,
Do jeito que se encontrar.

24
Que os meus versos respeitem
E seus errinhos aceitem,
E, sobretudo, isto:
“A Valsa de Mefisto”.

25
“Que o título sugestione
Bem claro sua autoria.
Pois preciso que impressione
Uma moça, e ela sorria.”

26
Os dois então suspiraram
Com os ares conformados
Daqueles que nunca pensaram
Em se ver assim comprados.

29
Chegando naquela fazenda,
O festão já começado
O patrão que era uma lenda
Nem tinha sido esperado.

30
Mamulengos e Cheganças
Já estavam encenando
E dezenas de crianças
Olhavam rindo e gritando.

31
Tinha até um povo chique
Chegado da capital
Mulher tendo chilique
E homem bancando o tal .

32
A dupla já notara
Aquela moça em questão
Pois beleza é coisa rara
Mormente naquele sertão.

33
Então chegou o momento
De apresentar o evento:
Um poema produzido
Por alguém desconhecido.

34
Começaram dedicando:
“A uma linda mulher
Que presente aqui estando
Um coração faz bater.”

35
Coçaram as suas cacholas
E afinando as violas
Anunciaram com isto:
“Eis a Valsa de Mefisto”!

36
Iniciaram a cantoria
Mas ainda nos começos
Tiveram alguns tropeços
Devidos à autoria.

37
É que não havia jeito
De melhorar a ruindade
Havia mais que defeito,
Havia mediocridade.

38
De repente, com o esforço
Malta começa a suar
Leva a mão ao pescoço
Seu coração quer saltar.

39
E caiu então pra frente
Em cima do violão
Com estrondo diferente
Parecendo uma explosão.

40
Foi confusão da brava.
Em volta já eram tantos
Que nem mesmo agonizava:
Tava mortinho dos Santos.

41
Maltinha balbuciou
Com a viola pendurada
Como uma pedra pesada
E pra sempre assim ficou

42
Tocando como um monjolo
No hospício da Soledade
No Recife da saudade
Onde faz carreira solo.

43
Se essa estória lhes dói
Não se metam a dar palpite
Vão visitar nosso herói
Pois a Direção permite.

FIM

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

RECITAL DE CORDEL DO GUILHERME DE FARIA - CONVITE A TODOS


RECITAL e Palestra do

GUILHERME DE FARIA
artista plástico e poeta
sobre seus CORDÉIS na
LIVRARIA DA VILA da CASA DO SABER


Dia 13 de Setembro de 2008, sábado, das 12h às 13h

rua Dr. Mario Ferraz 414- Itaim-Bibi

Entrada gratuita

Tel:3707-8900


O poeta Guilherme de Faria (65) se apresenta com um chapéu de couro de aba larga, normal, que evoca ligeiramente o tipo rural, e declama de saída um cordel de sua lavra entitulado Romance da Vidência.
Trata-se de um cordel de grande força dramática, que o autor declama como ator, com voz grave, sonora e impostada, com sotaque sertanejo, com veemência e interpretação adequadas à sua dramaticidade inerente. Costuma ser muito aplaudida esta performance. Em seguida conversa com a platéia contando "causos" e narrando as interessantes circunstâncias em que nasceu essa sua faceta de cordelista, que remonta a uma vivência sua nos anos setenta em pleno sertão de Pernambuco e Paraíba.
Trata-se portanto de um recital (com três a quatro cordéis seus declamados) e palestra que é entretenimento prazeroso para a platéia, e ao mesmo tempo muito instrutivo, pois o poeta evoca as origens do cordel remontando ao romanceiro medieval, recitando também de cór o famoso "A donzela que foi à guerra" poema narrativo medieval português de autor anônimo, muito gracioso, e que certamente deve ter inspirado Guimarães Rosa na criação do seu Diadorim (do Grande Sertão: Veredas).

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Romance do Rei da Grota


Cordel de autoria de Guilherme de Faria

1
Já que ocê toma nota
Vou lhe dar este conselho:
Não desça naquela grota
Nem me peça de joelho.

2
Às vez o povo de fora
Vem aqui me procurá
E pensa que não demora
O dinheiro me comprá,

3
E sempre me quer de guia
Para a caverna adentrá,
Pensando, porque é de dia,
Que isso vai adiantá.

4
Veio inté um pessoal
Do São Paulo, capital
De uma tal Facundidade
Uns moço pela metade

5
E umas moça deslambida
Também de home vestida
E falando “meio” e “tipo”
Comentando um tar de “lipo”.

6
Mas como desconversei
Ocê veja o resultado:
Foram sem rei nem lei,
Há um ano bem contado.

7
E não voltaram até hoje
Pra contar o acontecido.
E se a razão me foge
Eu teria co’eles ido...

8
Mas vou lhe contar, mocinho,
Que é pr’ocê pôr rabisquinho
Nesse papel e ficá
Por isso, e não me atentá

9
E não querer adentrá
A toca daquele “ente”
Porque de corpo presente
Eu prefiro descansá.

10
Quando entrei naquela grota
Foi na seca do noventa
Por isso a memória anota
Porque seca a gente atenta.

11
Tava co’a goela queimando
E co'a sombra aumentando
Na entrada dessa grota
A saliva logo brota.

12
Como água desse chão
Que a gente já não espera
Como chuva no sertão
E alegria na tapera.

13
Fui atraído e descendo
Pois que foi escurecendo
E ouvindo um barulhinho
D’agua cair fininho.

14
Vi uns brilho lá no fundo
Daquele escuro profundo
De repente eu avistei
O que nunca comentei.

15
Ocê acredita eu vê
Co’esses olhos cheios d’água
Que a terra há de bebê,
O que já conto sem mágoa?

16
Pois eu lhe digo: avistei
Vindo dos matos do além,
Lá estava ele : o rei
Velhinho matusalém.

17
A barba era tão comprida
Que arrastava pelo chão
Branca meio encardida
E com um cetro na mão.

18
Tinha um talhe de três palmo
E cantando um anti-salmo
Pr’umas sirigaitinhas
Nuas e peladinhas.

19
Apontou co’aquele cetro
Antes do “vade retro”.
Então me paralizou
E o povinho me levou

20
Sem que um dedo sequer mova
Para um tipo de uma alcova
Com pilastras e c’um leito
Que tava ali muito ao jeito.

21
O leito virou um rio
Me cataram os piolho
Me banharam com os olho
Sem que eu sentisse frio.

22
Sempre com um sorrisinho
De mulher de vida fácil
Piscando aqueles olhinho
De um jeito muito grácil.

23
Me fizeram adormecer
Com carinhos de bordel
Deitado sob um dossel
De estrelinhas de colher.

24
Tive um sono profundo
Como a morte e acordei
Já não mais naquele fundo
Do mundo daquele rei

25
Mas no meio das catingueira
Com o corpo descansado
Sem dores e sem olheira
Bem demais pr’um desgraçado.

26
Mas a mente, no entanto
Me cobrou razão e fé
Fui direto ao Monte Santo
Subi de joelho até.

27
Pois quem viu o Dito Cujo
Na caatinga é avistado
Por ele, como um marujo
Nesse mar pouco agitado.

28
E eu não quero pôr em risco
Essa alma que me cabe
Sob medida e sem fisco
E que é única, ocê sabe.

29
Nesse mundão de meu Deus
Não convém tudo arriscá
Tem jogo sob estes céus
Que costuma viciá.

30
Por isso, seu jornalista
Vou dizer “até a vista”
Pois não quero lhe guiá
Onde não convém voltá.

31
Este sertão sob o sol
Já tem seus rasos escuros
E a alma, dentro de muros
Procurando o arrebol.

32
Vivendo a vida ao léu
Prefiro ficá esperando
A manhã surgir raiando
Mais um dia sob o céu.

FIM

10/08/2002

Romance do Bobo da Aldeia


Cordel de autoria de Guilherme de Faria

1
Na Vila do Quiabo
Perdida neste Sertão
Havia um pobre-diabo
Deformado e quase anão

2
Que teve desde criança
O desprezo como herança
E vivia ao Deus-dará
Sem um teto pra morá.

3
Dormindo no vão da escada
Ou na porta da Igreja
Sem dinheiro pra cerveja
Muito menos pra buxada

4
De dia perambulava
A esmo, muito ligeiro
Aos trancos, e ele parava
De súbito e sem rodeio


5
Ficando na posição
Do seu gesto interrompido
Por tempo muito comprido
Para gáudio do povão.

6
Nesses momentos seu rosto
Se movia lentamente
Nunca olhando pra frente,
Um olhar no mundo posto

7
Como se observando
A própria impressão causada
No povo que na calçada
Ficava só gargalhando.

8
Entretanto, o tresloucado
Que se chamava Socó
Era muito apreciado
Pelo padre, e ele só,

9
Que o recebia na Igreja
Na hora da confissão
Sem palavras, ora veja,
Que causava confusão

10
Pois o tempo que durava
O padre naquela mudez
Era o mesmo que ele dava
Ao rebanho em sua avidez

11
De falar e fofocar
Naquele confessionário
Naquele labor diário
De ouvir e aconselhar

12
Mas o que deixava tudo
Claro como alma nua
Era que o pobre era mudo
Como um mímico de rua

13
A quem se tivesse cortado
A língua por garantia
E no final da folia
Se saísse acrescentado.

14
Nosso padre Generoso
No entanto em seu sermão
Nunca falou nesse irmão,
Nem no fato misterioso

15
Da existência no mundo
Dessas almas trancadas
Nas carcaças deformadas,
Em seu silêncio profundo.

16
Acontece ter chegado
Na aldeia em polvorosa
Trazida por um bom fado,
Professora primorosa

17
Que era quase uma beldade
Vinda da Diamantina
Pra fazer a sabatina
Das mentes desta cidade,

18
E foi logo acompanhada
Pelo olhar das janelas
Dessas mulheres banguelas
E do povinho da estrada

19
E de pronto foi seguida
Naquela sua entrada
Pelo Socó, de saída
Guardando sua retaguarda,

20
Dez passos atrás, no tranco,
O que causou gargalhadas
Confundindo-a nas passadas
E à moça causando espanto.

21
Seguindo o olhar do povinho
A moça virou pra trás
E deu com o maluquinho
Congelado num zás-tráz

22
E o grito de um coió
Com o ar de diversão:
“Não se importe, moça, não,
É somente o Socó, só!”

23
Mas a moça luminosa
Pôs-lhe a mão na cabeça
Como benção graciosa
Vinda de sua beleza.

24
O que provocou aplausos
Como se fosse uma artista
Ou um contador de causos
Dançarina ou equilibrista.

25
Então, depois dessa prova
A cidade até mudou:
O povo o pobre aceitou
De uma forma até nova.

26
E essa admiração
Pela bela professora
Facilitou sua missão
Nessa aldeia promissora.

27
Sei que parece exagero
Um simples gesto ter feito
Tanta mudança no peito,
Tão profunda e tão ligeiro.

28
Mas nisso é que tá o fato
Inusitado e espantoso,
Não fosse eu tão jeitoso
Evitava o espalhafato.

29
Porque pra contar um caso
Que é quase uma bobagem
É preciso ter coragem
E esquecer o descaso

30
Da maioria do povo
Que gosta de assombração
E precisa sensação
Pra gostar de caso novo.

FIM

27/08/2002

Romance do Padre Apaixonado


Cordel de autoria de Guilherme de Faria

1
Para quem aqui esteja
Uma estória vou contar
Contanto que a Madre Igreja
Não me vá excomungar

2
Havia um padre na aldeia
Onde vim e fui criado
Que não via coisa feia
Nem enxergava pecado.

3
Esse ser da Natureza
Tinha uma grande inocência
E olhos só pra a Beleza
Sem ver a maledicência.

4
Estava nos anos vinte
Mas sua sabedoria
Parecia um acinte
Pras velhas da sacristia.

5
Usava a batina santa
Mas com tal jovialidade
Que agora parece branca
Na memória da cidade.

6
Vivia sempre sorrindo
Com um ar iluminado
Mas logo se descobrindo
Que ele estava apaixonado.

7
Por quem ?... era o mistério.
Já que nunca foi flagrado
Com ninguém no batistério
Muito menos no sobrado.

8
Moças bonitas havia
Que lhe punham bom olhado
Não crendo a beataria
Que ele tivesse notado.

9
Mas havia quem notasse
Uma moça, sem alarde
Que teimava em confessar-se
Todo dia às três da tarde.

10
Deixando o confessionário
Seus olhos, como morma ços
Aqueciam o Calvário
Do Nosso Senhor dos Passos.

11
Esse namoro simplório
Se passava tão somente
Naquele genuflexório
Não podendo ir em frente.

12
O que falavam é mistério,
Não saberemos tão cedo
Que confissão é segredo
Que se leva ao cemitério,

13
Mas o olhar apaixonado
Não se pode esconder
Não passa sem ser notado
E costuma comover.

14
Como era seu destino
(Que a Igreja não nos ouça )
O padre num desatino
Resolveu fugir com a moça.

15
Não chegaram muito longe
Pois não tinham condução
E no meio daquele sertão
O hábito faz o monge.

16
Corriam pelo cerrado
Onde ninguém se esgueira
Pois é tudo avistado
Por mais que não se queira.

17
Um povo de invejosos
Chefiado por beatas
Cercaram os amorosos
Bem perto das cataratas,

18
Numa zona de restinga
Sem que pudessem escapar:
De um lado havia a caatinga
De outro gente a espumar.

19
Só restando a outra espuma
Que se pudesse optar,
Procuraram de uma em uma
Complacência num olhar.

20
Mas, ai, que aquelas megeras
Brandiam foices no ar,
Acuando-os como feras
Não permitindo hesitar.

21
E como quem desatina,
Resolveram então saltar
De mãos dadas na neblina
Que havia no lugar.

22
Viu-se o sinal da Cruz Santa
Que o padre fez num momento
Depois o beijo que espanta
E que sela aquele evento.

23
Essa cascata do Norte
Ainda faz gente chorar,
Lembrando o salto pra Morte
Do desventurado par.

FIM

Romance da Noiva Malfadada


Cordel de autoria de Guilherme de Faria.


1
Vou contar agora um caso
Que revoltou muita gente
Causado que foi, por descaso
De um coronel negligente.

2
Vivia aqui neste cerro
Uma jovem inocente
Numa espécie de desterro
Nesse mundo decadente.

3
Corria pela ravina
Ou no pátio ensolarado
A mulata Merlusina
Sem suspeitar do seu fado.

4
Os animais da caatinga
Corriam para saudá-la
Até mesmo urubutinga
Teimava em acompanhá-la.

5
Era uma pequena ninfa
Desejando só viver
Fluindo como a linfa
Nas raízes do dendê.

6
Co'a beleza dessa moça
Só podia competir
A beleza de outra moça
Que fosse igualzinha a si.

7
Nascera na antiga senzala
De seus patrões coronéis
Cresceu servindo na sala
Cafezinhos e pastéis.

8
O coronel mais idoso
Protegia essa moleca
Enquanto o filho famoso
Andava por Seca e Meca.

9
Mas eis que volta o rapaz
Ainda muito mais vistoso
Com aquele ar sagaz
De quem já viu o espantoso.

10
Pôs-lhe os olhos, com certeza,
Quando a moça punha a mesa
Pois beleza põe, na certa,
Ele fez a descoberta...

11
O rapaz se interessou
Pelo brilho da mulata
E logo se aproximou
Pra fazer uma bravata:

12
Tirou do fundo da mala
Com intenção de seduzí-la,
No intento de ganhá-la,
Com o que podia iludí-la:

13
Um anel de boa pedra
Que ganhou da sua dinda
Uma ilusão que ainda medra
No coração e não finda.

14
O noivado desejado
Por toda moça de então
Pareceu-lhe ter chegado
Como grande redenção.

15
Noiva de coronelinho
Era mais do que sonhado
Já que a havia cortejado
Tão somente um malunguinho

16
Daqueles de porta de venda,
E mais dois ou três peões,
Um deles com uma lenda
Mas todos três sem tostões.

17
Prosseguindo a clareada
Da raça (que ledo engano),
A mulata deslumbrada
Escolheu seu desengano,

18
Sem saber que o falso brilho
E a brancura do patrão
Escondia um peralvilho
Sem candura e sem noção

19
De decência ou de bondade
De moral ou lealdade,
Que tramava na surdina
A perda da Merlusina.

20
Este filho de patrão
Procurou seus “amiguinhos”
A quem deu a instrução
De fingirem de padrinhos.

21
O padre era um comparsa
Que ainda tinha a face lívida
E que faria esta farsa
Perdoado em sua dívida.

22
Armou-se então esse show
De circo sem elefante
E sem platéia elegante
O que a moça estranhou.

23
Em sua avançada idade
O coronel , na Suiça
Não sabia dessa missa
Nem ao menos a metade.

24
Na Casa Grande, na sala
Bem na hora combinada
A princesa da senzala
Fez a sua grande entrada

25
Estava mais bela ainda
Com aquele véu de tule
E com o anel da Dinda
Prêso no bico de um bule.

26
A coisa era muito estranha
Mas o padre relevou
Pra prosseguir a patranha
Que o patrão lhe ordenou

27
Mas antes que se beijassem
Quase no fim do rito
Por mais que eles pelejassem
Entalou o anel no bico.

28
Merlusina envergonhada
Saiu numa disparada
Largando bule e anel
Seguida pelo seu véu

29
No qual ela tropeçou
Na queda que foi fatal
Pois de degrau em degrau
Na escada ela rolou

30
E o seu pescoço quebrou
Bem defronte da fachada
Essa noiva destroçada
Um Negro Noivo encontrou.

31
A noivinha da Senzala,
Entrou pela porta do fundo
Saiu pela frente, sem mala,
Para ir ao Fim do Mundo.

31
Esses falsos convidados
Nessa frente avarandada
Perplexos e consternados
Se puseram em debandada,

32
Coincidindo com a chegada
Do coronel inocente
Que viu a moça largada
Ao pé da escada ,em frente.

33
Dizem que hoje, até,
Quem visita o coronel,
É servido de café
Naquele bule do anel

34
Pressinto que o café
Simboliza a Negra Raça
Com certa malícia até,
Fazendo sua pirraça.

35
Quanto ao anel no bico
Suponho ser nossa gente
Levada por essa corrente
Que não deságua no Chico,


36
De enganos e asneiras
De mitos e veleidades
Que atravessam as idades
Das famílias brasileiras.



FIM
31/01/2002

Romance do Santeiro Santo


( Cordel de autoria de Guilherme de Faria )

1
Ouçam agora vocês
Que vivem neste Sertão
A estória do Zé das Mercês
Santeiro por vocação

2
Vivia em Tracunhaém
Cidade de tecelães
Que tem santeiros também
Como tem quem faça pães.

3
Esse José campeão
Vivia em santidade
Recebendo inspiração
De sua própria castidade

4
As imagens que criava
Não vendia: ele dava
Pois não queria comércio
Nem centavo, nem sestércio

5
Aqueles que lucram com isto,
Dizia, cometem pecado.
Haja visto Jesus Cristo
Expulsando-os do mercado

6
Que faziam junto ao templo,
Com um rabo de tatu,
Fazendo deles exemplo
Dessa raça de urubu.

7
Comerciantes do granel
Discordavam do José
Como inconveniente, até,
Que lhes furava o cartel.

8
Mas como ele insistia
Em doar o que fazia,
Bastando que ele sentisse
A fé de quem lhe pedisse,

9
Começaram a duvidar
De sua integridade,
Pois não lhe podiam notar
Sinais de necessidade.

10
Mas o que eles mesmo viam
É que quanto mais ele dava,
Mais imagens surgiam,
Mais feliz ele ficava.

11
E também eles notavam
Que as imagens se tornavam
A cada dia mais belas
Iluminando sem velas.

12
Foi então que para ali vem
Um bem maior oponente,
Comerciante inteligente
Com um tino muito além.

13
Era no olho um cisco.
Perguntaram: - Vem de onde?
( Caiu-lhe um passe de bonde,
Talvez fosse San Francisco...)

14
Mas o povo diz: Não vingo
Distinguir nem o sotaque!..
Ficando que nem basbaque
Diante daquele gringo.


15
Quanto ao Zé das Mercês
Acreditem ou não vocês
Recebeu o estrangeiro
Com aquele ar maneiro.

16
E continuando atento,
Com a mesma concentração,
Dando ainda mais alento
Ao que tinha em sua mão.

17
O gringo examinou
Toda aquela santaria
E depressa calculou
Quanto aquilo renderia.

18
Depois logo interrompendo
O trabalho do Artesão
Passou da idéia à ação,
Pensando estar corrompendo

19
Ao jogar dólar na mesa
Em duas pilhas com elástico,
Num gesto quase plástico,
Sua única destreza .

20
O Zé nem franziu o cenho,
Cheio de delicadeza,
E disse com toda clareza:
“Pra mostrar que não desdenho

21
Da generosa oferta
Que o doutor tá me fazendo,
Com sua fé me comovendo,
Vou mostrar-lhe a porta aberta

22
Pro senhor sair correndo
E levar esse dinheiro
Pro povo que tá sofrendo.
Depois venha que eu lhe vendo,

23
Pelo amor que demonstrou,
Qualquer imagem, sem fisco,
Pra levar pro São Francisco
De onde o senhor chegou

24
O gringo saiu ventando,
Até mesmo envergonhado,
Aquele dinheiro espalhando
Sem sequer tê-lo trocado.

25
Quando voltou no Santeiro
Tendo o dinheiro acabado
Sendo apenas reservado
O da volta pro estrangeiro

26
Encontrou-o, então, deitado,
Com uma luz no corpo inteiro,
Pois a alma do Santeiro
Também tinha retornado.

27
Mas ao lado do cadáver
Um recibo em vez de velas:
“Recebi por todas elas,
Não ficando nada a haver.”


FIM

segunda-feira, 4 de agosto de 2008


Tear manual miniatura feito por um grande artesão anônimo de Minas Gerais. Esta maravilhosa peça, de apenas 55cm de altura, 33 de largura e 36cm de fundo, foi presenteada ontem a este cordelista pela senhora fluminense de Volta Redonda, filha de mineiros, Evelina Coutinho, simplesmente pelo cordelista ter manifestado o seu entusiasmo pelo objeto ao vê-lo na vitrine da loja que essa brava senhora manteve por muitos anos em São Paulo, na rua Padre João Manuel, nos Jardins. Depois de alguns anos de fechada aquela loja, recebi ontem um e.mail da referida senhora, presenteando-me a peça, gesto que me surpreendeu, deslumbrou e comoveu. Notem que esta miniatura perfeita, toda em madeira de lei, é uma verdadeira peça de museu. Dona Evelina disse:" Passados todos estes anos, não podendo mais olhar para esse objeto sem que me assaltasse a tristeza por ser recordação de tempos felizes que acabaram, resolvi doá-la à única pessoa que a notou especialmente e que manifestou entusiasmo por ela a ponto de entrar na loja só para comentá-la, o senhor, que na ocasião declamou ali mesmo para mim, o seu cordel "Romance da Teia."

sábado, 5 de julho de 2008

Romance da Teia (Republicação)





Romance da Teia (Cordel de Guilherme de Faria)



1
Na vila do Tenente
Lá onde o Judas morou,
Vivia mulher valente
Que a Morte enviuvou.

2
Muito cedo ele findou,
Para quem tanto o amou,
E ela não carecia
Dos pretendentes que havia.

3
Penélope a chamarei,
Já que sou testemunha
E o motivo dessa alcunha
Mais adiante lhes direi.

4
No entanto o expediente
Da teia não lhe ocorreu:
Resistia bravamente
Des’que o marido morreu,

5
Na base do clavinote
Carabina de bom porte
Que o marido já tinha
E deixou-lhe, com a casinha.

6
Penê, como eu a chamava
Uma caixa já esgotara
De munição e findava
Com a segunda que restara,

7
Não sabendo o que faria
Quando acabasse o chumbo.
Sua honra lhe doía
Como batida de bumbo.

8
Para ela era um espanto
Qualquer novo casamento,
Já que tinha amado tanto
E sido feliz tanto tempo.

9
O Destino em linha torta
Bateu-lhe afinal na porta
Com um moço forasteiro
Que chegou no seu terreiro.

10
Vinha meio extraviado,
Num pobre cavalo montado
Por uma cuia d’água
Pra si e pro seu Pintado.

11
Vinha dormindo na sela
Há dez dias como um Huno
Mas sem carne embaixo dela
E nem um pedaço de fumo.

12
Era um jovem apessoado
Mas estava piolhento,
De banho necessitado,
Que tava meio sebento.

13
Não parava de coçar
A cabeça, e de olhar
Com aqueles “óio” morteiro,
De fala mole, mineiro.

14
Bronco, belo, indefinido
Como um deus decaído,
Desavisado chegou,
Tanto que a desarmou.

15
Encostando o clavinote
Ela deixou-o entrar,
Banhou-o com água de pote
Pra depois o alimentar.

16
Levou-o até o seu leito
De viúva inconsolada,
Esquecendo o voto feito
E até a rede armada.

17
Mas não deitou-se ao seu lado:
Observou-o deitado,
Longamente, adormecido,
Como o “deus desconhecido”.

18
Fechou a porta, então
E depois pelo portão
Saiu pegando uma trilha
E andou um quarto de milha

19
Até uma cruz fincada
Quase na beira da estrada,
Que era o leito final
Do marido original.

20
E quase gritando falou:
“Sinésio me ouça agora,
E depois pode ir embora:
Seu mensageiro chegou!"

21
"Um homem puro e decente
Como criança inocente
Dorme sem medo e profundo
Como se bom fosse o mundo."

22
"Deixe-me agora voltar
E armar novamente o tear
Posso contar nossa história
Sem carabina empunhar."

23
"Passarei teu clavinote,
Qu’esse homem ostentará
Defendendo o nosso dote...
Sinésio, vai descançar! ”


FIM

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Romance da Dívida Herdada


(Cordel de Guilherme de Faria)



1
Pra vocês que aqui vieram
Minha estória vou contá.
Sou daqueles que puderam
Pra sua terra voltá.

2
Digo isso sem vaidade
E também aliviado,
Pois me parece verdade
Que ludibriei o Fado.

3
Este episódio soturno
Sempre me volta à mente,
Mormente no fim do turno,
E brota tal qual semente.

4
Saímo com a boiada
Bem cedo de madrugada,
Pensando de antemão
Só voltá pro São João.

5
Arnésio,eu e Justino
E mais Taioba, o negrão,
Sabendo o nosso destino
Ou ficando na ilusão.

6
Nóis devia levá gado
Pelo mais curto caminho,
Pru mode cada boizinho
Não chegá muito esfalfado.

7
Mas,ai,que o trecho corrido
Havera de se mostrá
O mais longo e mais sofrido
De um peão cavalgá.

8
Arnésio desde o cumeço
Me olhava pelo avesso
Dum jeito que nunca vi
E que até desentendi.

9
Seu ódio se fez visíve
Naquela travessia
E eu que nem sou sensíve
Achei que não merecia.

10
Como quero coisa clara
Lhe perguntei, na parada,
Direto mas com rodeio,
Que sou peão boiadeiro.

11
Mas desconversou depressa
Escabreando no laço
Como potro que começa
Dando o maió cansaço.

12
Ódio que corre de esguelha
Esse é o mais perigoso
É no apertar da cernelha
Que se vê peão famoso.

13
Saía lacrau e aranha
Todo bicho peçonhento
Debaixo da minha sela
Quando dormia ao relento.

14
Será que era tudo sina?
Tava era muito suspeito.
Alguma mente assassina
Trazia rancor no peito.

15
Resolvi tomar avanço
Chamar ele frente a frente
Disse: Arnésio, deixe o ranço
E jogue limpo, ó xente!

16
Me diga logo o teor
Primeiro, desse rancor
Depois vamo resolvê
Isso aí no vamovê.

17
Escolha arma e serviço
Ou aceite minha desculpa
Se fôr um caso de culpa
Mas, home, pare com isso!

18
Arnésio me olhô fundo
Pela primeira vez
E disse com ar profundo
Como quem compra uma rês:

19
Argemiro, com quem lida?
Sou o Nésio, do Lajedo.
Você salvô minha vida
Como se fosse folguedo.

20
Como um pequeno aporte
Duas vezes me salvô
Eu tava jurado de morte,
O assassino ocê matô.

21
De um galho me arrancô
Sobre o abismo e me deixô
Sempre sem dar importança
Como a um cão ou criança.

22
Posso mais arcar não
Com gratidão humilhada
Como a que me foi legada
Pela sua prontidão.

23
Enquanto ocê tiver vida
Eu me sinto endividado
E até amaldiçoado
Pela obrigação devida.

24
Enquanto ocê viver
Eu só me sinto morrer.
Me desobrigue, Argemiro,
Ou morra ou me dê um tiro!

25
No crepúsco então paramo.
Nossas arma preparamo.
Enquanto a sombra descia
As nossas arma subia.

26
Justino e Taioba de prova
E nos dois bem concentrado
Com dez passo bem contado,
Estampido e odor de porva.

27
Arnésio no chão deitado
Com um um sorriso me fita:
Ele tava libertado
Da obrigação maldita.

28
E eu tinha começado
A arcar com o peso da minha
Tendo em seu sangue herdado
O dever que ele me tinha.


FIM



20/02/2002