terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Cordel para a Dona Sinhá (de Guilherme de Faria)



Cordel para a Dona Sinhá (de Guilherme de Faria)

(a partir das lembranças de Eliana Tavares de Mattos,
minha esposa, natural da cidade de Barretos)


1
Pelos idos dos cinqüenta
Na minha saudosa Barretos
Tinha eu quase por parenta
A Dona Sinhá, sem netos,

2
Sem filhos, sem quase nada,
Mas que não pude esquecer
Os ditos e a gargalhada
Que ela tinha a oferecer.

3
Ah! Ela tinha um sobrinho
Que era escritor também
De que me lembro, o Zingo,
Mas Dona Sinhá é que vem

4
Sempre na minha memória
Com a sua alegria
E cuja singela história
Só posso contar em poesia.

5
Velhinha espirituosa
Merece que eu cite agora
Sua verve, comum embora,
Em contexto... saborosa.

6
Se se falava em quireras,
Ou conversa fora jogada,
Tratava como quimeras:
“Nada vez nada... nada!”

7
Ou se estava complicado
A gente explicar o porquê
De algum fato inusitado
Ela ajudava você

8
Dizendo em tom cabal:
“Pelos vinte e cinco motivos
Não é? Fulano de tal...
E começavam os risos.

9
Se meu pai que era sovina
Embora fosse bom homem
Nos negava a tubaína,
Ela, com um sorriso jovem:

10
“Tando guardado tá bom!”
Não é, querida Eliana ?
Dizia alto e bom som,
Num humor nada sacana,

11
Pois não havia julgamento
E sim grande aceitação
Pelo outro em seu momento,
Do jeito que as coisas são.

12
Se alguém se achava esperto
Mas se fazia de tonto
Dizia rindo, de pronto:
“Piquitinho dos óio aberto!”

13
Isso porque ela amava
Sobretudo a cachorrada
Que em sua casa cuidava
Apesar de questionada

14
Uma vez por seu Américo,
O marido num momento
Irritado, quase histérico:
“Ou eles ou eu, nu’m güento!”

15
Nos contou, estupefatos,
Pois séria ela respostou:
“Então... eles, cães e gatos!
Disse ao velho... e ele ficou.

16
Mas seu Américo também
Era figura engraçada
Sociável como ninguém,
De pijama na calçada

17
De tardezinha chegado
Do trabalho e então banhado
Vestia o “fardão” listado,
Seu descanso antecipado,

18
Na sua cadeira inclinada
Em equilíbrio precário
Jamais no entanto quebrada,
Nesse seu risco diário.

19
Mas eu era mesmo fã
Da velhinha e sua irmã,
Dona Inácia, paralítica
Santa, mirrada e raquítica

20
Que pegara, e não é óbvio,
O humor sem negação
Pelo diário convívio
Com esse ser de exceção,

21
A Dona Sinhá com seus ditos,
Lugares comuns da cultura
Mas pela experiência benditos
De uma alma em sua candura.

22
“Deus é pai, não é padrasto”
Dizia a torto e a direito,
Mas notável era o efeito
E nos renovava o cadastro

23
Na repartição do Mestre
Que às vezes por nosso orgulho
De ser sem asa e pedestre,
Tratávamos como um entulho.

24
“Pra se conhecer alguém
É preciso comer junto
Um saco de sal e sem
Fazer cara de presunto.”

25
“Formiguinha é bom pros óio”,
Trazendo um bolo dizia,
Como um cavalo de “tróio”
Mas que a gente bendizia


26
Porque era tão gostoso
Sabendo que mal não fazia.
Não como o presente famoso
De que a gente nem sabia.

27
A velha tinha um cãozinho
Que se chamava Martelo
E quando um menininho
Que se chamava Marcelo

28
Atropelado foi, confundia
(desculpem-na o paralelo)
Gritando, e a mim me arrepia:
“Foi-se, foi-se o Martelo!"

29
E do Zuza, de fama pão-dura,
Meu pai, que me dava medo:
“Dinheiro é assim, cê segura
Por aqui e sai pelos dedo.”

30
“Cardo de galinha e precaução
Nunca fez mal a ninguém”
Dizia, fazendo menção
Ao perigo rondando alguém.

31
E sempre, como a receita
De um tesouro verdadeiro,
Dizia assim: "Aproveita
Que o Bráz é tesoureiro."

32
Mas devo também mencionar
No fim dessa missa laica
A sua cadela Laika
Pra a Rússia homenagear.

33
Esta era a Dona Sinhá
Que é ‘tar e quar” que lembro
Naquelas tardes de lá
Dos dias do meu Setembro...

FIM

15/12/2009

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Esta ilustração de abertura do blog é o detalhe de uma xilogravura de Guilherme de Faria , que ilustra o folheto do autor com sua visão pessoal sobre o tema já classico do Pavão Misterioso do sertão nordestino. Vide abaixo a ilustração completa:


e o detalhe:

sábado, 26 de setembro de 2009

Versão inglesa do Romance da Vidência


Capa do folheto de cordel Romance da Vidência, com xilogravura de Guilherme de Faria

Em homenagem a uma interessante senhora de meia-idade americana (de quem não me lembro o nome) e que conheci numa loja de arte de amigas minhas na rua Augusta, e que tendo se declarado entusiasta da arte popular brasileira e colecionadora de folhetos de cordel nordestinos (seria ela uma " brasilianist"?) recebeu de mim de presente um exemplar deste Romance da Vidência, publico aqui esta minha tentativa de versão para o idioma inglês, desse cordel que é considerado por muitos como a minha obra-prima. Perdoem-me os conhecedores da língua de Shakespeare os eventuais erros e impropriedades que possa ter cometido. Reconheçam, se possível, o esforço requerido nesta empreitada: verter para um outro idioma que nem sequer domino sem dicionário, com métrica e rima o meu próprio original. Notem que para manter métrica e rima sem trair a essência do poema, eu tive que recorrer a uma "transliteração" criativa. O resultado pode ter ficado parecido com uma balada irlandesa, mas a ideía é justamente essa, encontrar uma equivalência ou aproximação de espírito popular entre as duas culturas: a nordestina brasileira e a celta.

(e.mail de contato: guilhermedefaria@gmail.com)

Divination Cordel

(by Guilherme de Faria, from Brazil, translated from the portuguese by the author)


1
Behold, o might emotion,
To an odd folk tale!
(I’d rather sing and sail
On a clear slow motion...)

2
I only need a sound
To beguin my chants.
Give a penny or a pound
It certainly enchants.

3
Once upon a time
Was a gipsy or “gitan”
And not only for the rhyme
She was not a puritan.

4
Rafeesa was her name
An she had a bad fate,
But she never had the blame,
She was not a being of Hate.

5
She’d power of divination,
But unfortunate Cassandra,
Misbelieved by her nation
As if she was a “salamandra”.

6
Than it happened one day
That arrived an ironsmith
From a place far away,
That had heard about her Mith.

7
He was but a horse fly
And although being dirty
Was a handsome guy
That was only about thirty.

8
Rafeesa (almost forgot)
Had a fame of very hot
Since guys were affected
By her graceful aspect.


9
But this man of small future
Took off his hat of leather,
He stood and looked better
With those eyes of moor.

10
“Eh laho, Lady Raffesa,
I came from far away
Searching a smile of Monalisa
Since the "Ides of May”.

11
“I came from Blakstone,
A county where never rains
Since the night of the stone
That felt on the plains”.

12
“Let me speak, you’ll understand,
Lady Feesa, hear these guy,
When I talk, don’t contend,
If I stop my mind will fly”.

13
So Raffesa looked at the man
From his head to his feet,
Shook her hand like a fan
And not like when we meet.


14
And sat on her favorite chair
Without the crystal ball
As she only need some air
And had not some help to call.

15

“I’ll tell you my intension:
I’m very, very distressed
By a tormented passion
Of a dream I’ve no access”.

16
“She is called Lisamel
And not even knows I exist,
With her admirers in a list
Her father is a colonel”.

17
“When she passes by on riding
Throws lots of coins in the hall
To the kids running and finding
In the middle of their howl”.

18
“She stops at the furnace
Asking for a cup of water,
And she drinks, o pretty face!,
Without looking to this brother”.

19
“And I stay seeing her shoes
That is really a golden sandal
Showing those little toes
With the second larger: scandal!”

20
“After than, O sorrow of mine!
She would never ask my aid.
She did not want the wine
I provide to my maid!"

21
Rafeesa fixed those eyes
And quickly laid down the cards,
Than signed the one that lies
Although surely she retards.

23
“Man”-said Lady gitan-
“Its written here so clear
That the fate is already done
And you must have no fear”.

24
“Vessel maid comes to shore.”
“Soon she’ll drink on your palm
But I can’t say no more
So you can just be calm.”


25
The ironsmith moved away
Sowed of much a hope,
Taking back soon his way
To his "Forgery & Masterstroke".

26
Passed by only a week
He came back in a gallop
Like a soul lost and weak,
With his anguish in the top.

27
“ Lady Feesa, show me please,
My cards, to know, and soon
The sure day I will decease
Cause I’ll not see this moon.”

28
“I’ll pay back the offsetting
Cause my maid saw my palm
Drinking water in my setting,
But in agony, without a salm.”

30
“In the timing of her death
She rode many a yard
To finally find the rest
In the face of her card.”


31
“Shoot down in her breast
By a pretender in sorrow,
She drunk with no tomorrow
In my palm... at last!”

THE END




Romance da Vidência
(Cordel de Guilherme de Faria)


1
Preparem a sua emoção
Para um caso do Destino
Vou usar todo o meu tino
Pra cantar sem violão.

2
Só preciso achar o tom,
Que a música deste poema
Cria seu próprio sistema
De silêncios e de som.

3
Havia nesta divisa
Uma cigana arretada
O seu nome era Rafisa
Parecia alumiada.

4
Tinha o dom da profecia
Mas, cassandra malfadada
Era sempre acreditada
Só depois que acontecia

5
Aí houve o incidente,
Que chegou no seu terreiro
Um capiau renitente
Que era um pobre ferreiro.

6
Vinha montado sem sela
E embora fosse cascudo
Era bonito e parrudo
Sem papos nem xurumela.

7
Rafisa (quase esquecia)
Era um pouco desgrenhada,
Também tinha a latumia
De uma Medusa da estrada.

8
Quer dizer: era bonita
E até muito faceira
Descontada a cabeleira
E a saia sarapintada.

9
O matuto desmontou
E tirou o chapéu de couro
Parou um pouco e olhou
Com aqueles olhos de mouro.

10
“Siá Rafisa, venho vindo
De muito longe, seguindo
A fama de vosmecê,
Queira pois me recebê.

11
Venho da Pedra Preta
Um raso onde num chove
Desde a noite do cumeta
Que ainda o povo comove.

12
Mas num vim pedir trovão
Que num é de sua alçada
É lance de coração
Ou de vida amargurada.

13
Me deixa entrá que lhe esprico
Siá Rafisa, ocê me escuta,
E se falo, não discuta
Que se calo, me comprico.”

14
Rafisa olhou o matuto
De cima a baixo e botou
A mão no colo e virou
Com aquele ar arguto

15
E na mesa da cozinha
Sem a bola de cristal
Sentou depois da voltinha
Com seu jeito sensual.

16
“Como digo a vosmecê
Ando muito agoniado
Duma paixão sem mercê
Por um sonho inalcançado.

17
Ela se chama Lazinha
E nem sabe que eu existo,
Filha do coroné Xisto
Tar quar uma princesinha.

18
Quando passa amuntada
Joga moeda no ar
Pra meninada catar
No meio da gritaiada.

9
Um dia chegou na frágua
Pedindo um pouco de água
Bebeu sem me oiá, pensei,
Ou fui eu que não oiei

20
A não ser, pro seu pezinho,
Carçado cuma alpercata
Fina, de ouro e prata
Mostrando aqueles dedinho

21
Que prestei muito sentido,
Para minha perdição
O segundo mais comprido
Que o primeiro, como a mão.

22
Depois disso, ó minha mágoa,
Só brinca de esconde esconde:
Já não quis mais pedir água
Na casa deste visconde.

23
Siá Rafisa, me diga
O que faço pra arrancá
Do meu peito essa urtiga,
Pra dessa paixão me livrá?”

24
A cigana reparou
Nos olhos do capiau
Botou cartas e apontou
Um modesto dois de pau.

25
“Hóme,” disse a cigana,
“Tá escrito aqui tão claro,
E essa carta não me engana,
Que não vou nem cobrar caro.

26
A coronelinha vai
Beber água em sua palma
Mas num posso dizer mais
Pelo bem da minha alma.”

27
O matuto se afastou
Semeado de esperança
E pra sua forja voltou
Terminada a sua andança.

28
Uma semana passada,
Voltou ele galopando,
Parecendo alma penada,
E chegou logo gritando:

29
“Siá Rafisa, bota a sorte
Que quero o dia saber
E a hora da minha morte
Para o quanto vou dever

30
Porque de hoje não passo:
A moça veio beber
Da parma deste palhaço
Mas foi de tanto sofrer

31
No momento do trespasso.
Caminhou mais de três légua
Sangrando quase sem trégua
Pra vir morrer no meu braço.

32
Baleada no pulmão
Por um pretendente em mágoa,
Morreu bebendo da água
Da parma da minha mão!”

FIM

12/07/2001

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Soneto português de devoção (de Guilherme de Faria)


Para Alma Welt

Apesar de não gostar muito de guerra
Por Joana D’Arc tenho grande devoção,
Me perdoem os ingleses e a Inglaterra
Que queimaram esta guerreira em Ruão.

Por outro lado, detestando os alcagüetes
Tenho certa pena do infeliz
Do escolhido e pobre Iscariotes
Que não virou maldito porque quis.

Mas uma heroína que me encanta
É a Maria, a melhor das Madalenas
Que quando puta pra mim já era santa.

E entre todos os bons heróis covardes
Gosto mais de São Pedro e suas penas
De galos triplos, orelhas e quo vadis...

12/06/2009

* galos triplos- alusão ao galo que cantou tres vezes quando São Pedro por covardia renegou o Cristo já aprisionado, quando lhe perguntaram se o conhecia.

* orelhas-
alusão ao episódio de São Pedro cortando a orelha de um dos soldado que vieram acompanhando os sacerdotes do templo para prender Cristo no Horto das Oliveiras.

*... quo vadis- Para quem não sabe, Cristo, depois de morto apareceu na Via Apia caminhando em direção a Roma quando São Pedro se afastava da cidade por essa estrada a conselho de seus discípulos que estavam sendo presos e martirisados no Coliseu a mando de Nero. O apóstolo teria perguntado então ao Cristo: Quo vadis, Domine? (Aonde vais, senhor?). E Jesus respondeu: "Estou indo a Roma para ser novamente crucificado, visto que abandonas meu rebanho". Então São Pedro virou-se e voltou à Roma, onde logo nos portões foi preso e em seguida crucificado de cabeça para baixo a seu próprio pedido. Na verdade esta estória não está nos Evangelhos e pertence a uma tradição oral que foi divulgada literariamente pelo polonês Henrik Sinkiewsky no seu magnífico romance histórico Quo Vadis, transformado em filme por Hollywood nos anos 50, com Peter Ustinov no papel de Nero. Alma Welt amava este romance e escreveu um fascinante soneto (O Quo Vadis da Alma) inspirado no episódio de Ligia, a heroína cristã do romance, amarrada nua às costas de um touro, no Coliseu, sendo salva pelo gigantesco Ursus, seu fiel servidor germânico. Entretanto, temo que explicando tanto eu tenha tirado toda suposta graça do meu soneto (rss)

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Romance do sobrevivente (cordel de Guilherme de Faria)

Sou, amigos, paciente,
Digo mais: sobrevivente!
Escapei de peste vária
Como a da gripe aviária;
Não fui morar em Angola,
Escapei do surto ebola.

Driblei a Aids, isso sim,
Passei ao largo da dengue,
Mas resfriado, ai de mim,
Fiquei molinho e perrengue.
Continuei vivo contudo
E fui passear na Argentina,
Fui chamado de "boludo",
Vivo à custa de aspirina.

Mas dessa gripe suína
Na certa estou na mira
Minha máscara é muito fina,
A do vizinho é melhor
Antes que a gripe confira
Vou comprar uma maior.

Mas, Deus, estamos perdidos
Desde a expulsão do Éden
Fazendo tudo o que pedem
Os locutores sabidos
Que inventaram a roda
E comandam vida e moda
Para quem lhes der ouvidos...

domingo, 22 de março de 2009

Sonetos da Sertaneja (de Guilherme de Faria)


capa do folheto de cordel "Sonetos da Sertaneja", com xilogravura de Guilherme de Faria


Sonetos da Sertaneja
(de autoria de Guilherme de Faria)


Soneto do amante rarefeito

1
De moça eu tive um amante
Agora já tão distante
Que o cisco do seu olhar
Já não consigo lembrar.

Do seu peito a caixa preta
Que guardava o coração
Perdeu-se sob a marreta
Que destruiu meu porão.

A coluna ta faltando
E o quadril eu nunca vi
Mesmo quando tava amando

Quanto à flauta da canela
Tô dando por falta dela
Que a embocadura eu perdi.



2
Outrora, se me recordo
Fiz co’o diabo um acordo:
Amores que nunca morrem
Dinheiro, paz, nessa ordem

Mas a paz, por derradeira
Foi que perdi de primeira
Pois um amor duradouro
Brilha bem mais que ouro.

E um amor encontrei
Que até ouro eu desprezei
Dando-o a ele quase inteiro

E o resto, que guardei
Nunca mais eu avistei,
Que os enterrei no terreiro.



3
Amores, sonhos, casinha
Crianças correndo em volta
As panelas na cozinha
Uma vida sem revolta,

É tudo o que eu sempre quis
No tempo da escolinha,
E escrevi no quadro a giz
Quando isso ainda tinha.

Mas minha professorinha
Não corrigiu uma linha
E esqueceu de me ensinar

Que amores, sonhos, casinha
Eram coisas que eu já tinha,
Só podia abandonar...




Variante do Soneto do Amor Rarefeito

4
Tive um parceiro dileto
De quem guardei o esqueleto,
Tinha um cisco no olhar
Que isso não pude guardar.

Tinha um furinho no queixo
Do qual eu nunca me queixo
Conquanto ficou no chão
De areia do chapadão.

Quanto ao resto do amante
Está faltando o importante:
O osso do seu quadril

Que em vida nunca faltou
Ao osso do meu, servil,
Que sempre subjugou.




5
Encontrei o meu jagunço
Numa festa de furdunço.
A noite toda beijou-me,
De manhã abandou-me.

Passado um ano ou mais
Ele voltou, veio atrás
De um beijo que faltou
E assim que me viu cobrou.

Agora eu o sigo direto
Embora, infeliz , tenha o veto
De toda a jagunçada,

Andando distante uma légua
Atrás da tropa, montada
Na pobre da minha égua.




6
Atravessei minha vida
Como a esse chapadão,
Com pouca água e comida
Senão as do próprio chão.

Raízes, pó, macaxeira,
Coisas duras de roer,
Os sonhos que nem peneira
Sob a água do viver.

Mas qual boa garimpeira
Recolhi na minha batéia
Uma pepita lampeira

Que iluminou minha vida
Como se eu fosse uma atéia
Amorosa, fiel, atrevida...




7
Venho por essa caatinga
Desde longe, noutro mundo
Onde havia uma restinga
À beira de um rio fundo.

Abandonei o meu rancho
Que era qual paraíso
Por ter perdido o juízo
Por causa de um pobre Sancho

Que nem tinha o Don Quixote
(por esse eu não correria
nem atrás do meu dote)

Que de maluca já basta
Esta pobre parceria
Que no deserto se arrasta.




8
Encontrei o meu destino
Numa festa de Chegança
Não plantei, não fiz criança,
Não foi Festa do Divino.

Sete anos só de zona
Na cidade de Ouro Fino,
Outros tantos pra ser “Dona”
Que eu só era “a do Rufino”.

Rufião é o que ele era
E gostava de bater
Pois que nisso ele era fera.

No final, depois de um tiro
Arrependeu-se ao morrer,
Ao que muito me refiro.




9
Eu nunca avistei o mar
Mas faço dele uma idéia:
Um lagão a se agitar
Tremendo que nem geléia.

Um bando de peixe escarlate
E um peixão muito feroz;
À borda, feito arremate,
Renda branca de retrós.

Eu prefiro imaginar
Que tenha coisas mais finas
Sem sair do meu lugar

Pois prefiro nunca vê-lo
Se tiver que deixar Minas
Ou ir além de Curvelo.

FIM

03/08/2004



Sonetos da Sertaneja II
(de Lima Duarte- MG
Versos de Guilherme de Faria)

Em Lima Duarte vim
Duartina me criei:
Me apaixonei, ai de mim!
Por alguém que virou frei.

Na rua da Prefeitura
Namorei, sentei na praça;
Sou mineira, moça pura,
Não neguei a minha raça.

Fiz das tripas coração,
Nos seus votos o meu véu
Não era de contrição

Pois na Rádio Cascavel
Dediquei-lhe uma canção
Que falava do meu mel.




Sonetos da Sertaneja II
(de Lima Duarte- MG
de Guilherme de Faria)

2
Nasci em Lima Duarte
Nunca quis sair da toca
Sou mineira e dest’arte
Nem conheço Ibitipoca.

Já que sou zona da Mata
Não me mata de vergonha,
Não queira me pôr na zona
Que assim ocê me mata.

Respeite meu sentimento
Que sou só de dar broinha
Não tenho arrependimento.

E morando em Paradinha
Não mudei, não me dei ares
Na Francisco Valadares.



Sonetos da Sertaneja II
( Dos Sonetos da Paradinha, Lima Duarte,
de Guilherme de Faria)

Quem me vê assim quietinha
Nesta rua em Paradinha
Se espanta que eu não me queixe
Das Dores do Rio do Peixe.

Mas é que a Nossa Senhora
Que é a dona dessas dores
Vela pela minha hora
De sorrir pros meus amores.

Assim eu vivo a vidinha,
Conformada, na aparência,
Mas por dentro uma rainha

Que espera o seu patrono,
Paciente, sem urgência,
Pra retornar ao seu trono.

FIM

05/08/2004

Romance do Galo(cordel de Guilherme de Faria)


Capa do folheto Romance do Galo, com xilogravura de Guilherme de Faria


1
Vou contá agora um causo
Que ninguém mais qué contá
Decerto devido ao descauso
Do pouco assunto que dá.

2
É que o pobre do Zequinha
Cismava de pé ou sentado
Ciscando sempre, coitado,
No terreiro com as galinha

3
Cutucando co’a varinha
Talvez de desenfastio
Ou pra dá ao tempo linha
Pra poder pegar o fio

4
A taperinha caiada
Já tinha sete menino
E a muié sempre embuxada
Cum mais um que tava vino.

5
Haverá de acontecê
Arguma coisa uma hora!
Num era possíve sê
Só essa vida caipora.

6
De repente observô
O galo naquele terreiro
E desta vez de primeiro
Muito inté lhe adimirô.

7
No meio da área vazia
Ele mantinha imponência:
Seu brio num esmorecia
Do harém tinha tenência.

8
Sempre de peito estufado
A crista muito vermelha
Barbelas de macho safado
E penas da cor da telha.

9
Parecia estar posano
Sempre e sem descanço
Se exibindo desfilano
Até c’um passo de ganso.


10
No calor desse terreiro
Quar bigorna de ferreiro
Onde nem inseto havia
Esse galo se exibia.

11
Zequinha então entrô
Na taperinha um instante:
Debaixo da cama tirô
Uma mala c’um barbante.

12
Era a mala do casório
Co’a Dasdô, coitada,
Que há muito tava encostada,
Do tempo do suspensório.

13
Pegô o terno de risca
Camisa de colarinho
Gravata sem deseínho
Vermeia que os óio pisca.

14
Vestiu o terno e a gravata
De casimira barata,
Amassada em desalinho
Que ele esticô um pouquinho.



15
Quando botô o lenço
Branco naquele bolsinho
Desse terno azul marinho
Foi ficando meio tenso.

16
Aí empinô o peito
E tava quase ino embora
Quando viu o par de espora
Pendurado junto ao leito.

17
Afivelô nas botina
De modo meticuloso
E assim todo garboso
Se sentindo gente fina

18
Se ergueu em toda linha
Vortô a empiná o peito
Foi saino sastifeito
Atravessando a cosinha

19
Cum as espora tinindo
Tava macho, tava lindo
Andando sem se voltá
Os óio sem desviá

20
Viu a sua Dasdô
C’o Junio no colo em riba
Da sua grande barriga
Mas por ela ele passô

21
Enquanto aquela turminha
Das criança na cozinha
Abria uma gritaria
Saudando essa alegoria.

22
E o Zequinha foi pisô
No terreiro e então andô
Pra frente sem se vortá
Sem nem em vorta oiá

23
E garboso caminhano
Tinindo aquelas espora
Foi o campo atravessano
Visíve por uma hora.

24
Até que o vulto distante
Naquela linha ondulante
Que o calor reverbera
Em vorta daquela tapera


25
Foi ficano meio vago
Até sumí por encanto
Para aquele meu espanto
Que ainda no peito trago...

FIM

05/02/2003

sábado, 14 de março de 2009

Romance do Coronel e a Donzela


Capa do folheto de cordel "Romance do Coronel e a Donzela",com xilogravura de Guilherme de Faria


1
Pr’essa seleta audiência
Vou contar quase uma lenda
D’uma donzela Laudência
Que vivia na fazenda.

2
Prometia desde a infância
Aquela beleza rasgada
Que iluminou essa estância
Como vela encomendada.

3
Correndo da cozinha
Pro terreiro e pro cercado
Pra tratar cabra e galinha
E voltando pro sobrado,

4
Dormia com sua tia
E também com uma prima.
No catre ela se espremia
Sem lhes perder a estima.

5
Os grandes leitos da casa
Viviam sempre vazios
Como se tivessem brasa
Ou se fossem muito frios,

6
Que o coronel Zé Simão
Tinha munheca de vaca
Não repartindo o pão
Para não gastar a faca.

7
Quando a pobre arrumava
Esses leitos infecundos
A coitadinha deitava
Neles por uns segundos,

8
Fingindo-se adormecida
Numa cama de dossel
Sonhando uma outra vida
Debaixo de um outro céu

9
Onde, princesa encantada
Ela seria levada
Por um príncipe vaqueiro
Pra longe desse terreiro

10
Para um rancho acastelado
Cercado de muito gado,
De vaquinha com torneira
E galinha poedeira.

11
Pulava então, assustada,
Com medo de ser flagrada
Em crime de fantasia
De beleza ou monarquia.

12
Mas Laudência cresceu
Botou corpo e “embeleceu”
Foi ficando apetitosa
Coisa muito perigosa,

13
Quer dizer, desabrochou,
Sua beleza então ficou
Um tanto meio ostensiva
Doendo na carne viva

14
Do desejo do patrão,
O coronel Zé Simão
Que há muito enviuvara
Sem fazer florir a vara

15
Como o José da escritura,
Que este José caradura
De santo não tinha nada
E sua vida era “privada”...

16
Mas a donzela expedita
Quando servia na sala
Cafezinho pr’a visita,
Não parecia vassala.

17
Era sempre confundida
Embora simples vestida,
Pois que se vê pelo pé
Quem é nobre ou pangaré.

18
E a donzela Laudência
Que morava no porão
Tinha toda a aparência
De uma filha de patrão:

19
Os tornozelos fininhos
E delicados pesinhos
Que pisavam no assoalho
Como gata no borralho.

20
Mas o tempo deu a Laudência
Uma cota de seis meses
De paz, depois dos seus treze,
Que o patrão tinha urgência.

21
Como a tia vigiava
E era boa cozinheira
O patrão diz que casava
Ou fazia companheira.

22
É que o velho apaixonou-se
Ficou zoró e babou-se
Coma idéia de colher
A flor de tanto prazer.

23
Foi casar se decidir
Seu filho retornar
À casa para exigir
O que era seu pra herdar

24
Já que a mãe é que era rica,
Filha de um general
(sua morte não se explica
e ainda cheira muito mal).

25
O filho era um doutorzinho
Criado na capital,
Não se dava com o paínho
Ou se dava muito mal.

26
Arretado de bonito
Botou o olho em Laudência
Cuja bela aparência
Aumentou com o espevito

27
Pois a moça nele viu
O príncipe do seu sonho
E embora fosse bisonho
Esse amor evoluiu.

28
O rapaz reinvindicava
A fazenda e algo mais:
Três quartos dos animais,
Que com a moça se casava.

29
A casa então estalava
Com o ódio que exalava
Dessas paredes fatais
Com pai e filho rivais.

30
No meio dessa tensão
A tia da pobre Laudência
Fraquejou do coração
E fez ver a sua ausência.

31
Pai e filho amparavam
Até o cemitério
A moça e lhe segredavam
Promessas de refrigério.

32
Mas água caiu demais
Sem esfriar o rancor
Desses corações rivais
Divididos pelo amor

33
Dessa moça pueril
Que nunca na vida viu
A verdadeira nobreza
Que já tava em sua beleza.

34
Ela então se decidiu
Pelo filho do patrão
Um bom noivo nele viu,
Que era moço e bonitão.

35
Resolveram então fugir
Para poder se casar
Que a onça estava a rugir
E ameaçava saltar.

36
Mas não chegaram direito
Na porteira da fazenda
Que o velho já tinha feito
Pr’a jagunçada a encomenda:

37
Surgiram de todo lado
E abateram à paulada
O cavaleiro encantado
E a moça foi levada

38
De volta pro casarão
E trancada no porão
Lacrado durante o dia
Como o lacre que ainda havia.

39
O povo da região
Diz que o velho coronel
Descia àquele porão
De noite com um farnel

40
E subia ao amanhecer
Pra na varanda sentar
Olhando o alvorecer,
Tentando purificar

41
A sua alma sombria
Que qual carcará vigia
Seu reino desse sertão
De trevas e solidão.

42
Agora peço perdão
A esse meu auditório
Que com tanto palavrório
Perdi a medida e a mão

43
Contando causo escabroso
Que é melhor nem ser contado.
Quem cala, diz o ditado,
Traz presente valioso.

44
Mas sendo um conto de fada
Posso concertar um pouco
E dizer que tava louco
Com a versão apresentada,

45
Pois o moço não morreu:
Tava ferido e viveu
Escondido na palhoça
De um casal que o recolheu

46
E voltou daquela roça
No seu cavalo Himeneu
Chegando mesmo justinho
Para salvar o selinho.

47
O coronel que era um bruxo
Deu um estouro e babau,
Mas ainda deu-se o luxo
De virar um bacurau

48
Que vive cantando agouro
No mourão dessa porteira
Para o fado duradouro
Do amor dessa parelha

49
Que agora vive contente
No casarão povoado
De crianças adoidado,
Com até cama patente.

FIM
18/02/2003