quinta-feira, 13 de março de 2008

Romance do Vaqueiro Rei (Cordel de Guilherme de Faria)



1
Vou contar neste romance
Um caso que é novidade
Pra quem no Sertão avance
Quanto mais pros da cidade:

2
Morava aqui neste rancho
Sem água nem para um pote
Um vaqueiro Don Quixote
Que não tinha nem seu Sancho.

3
O povo se retirava
Morrendo que nem desova
Largando miséria brava
Pra buscar miséria nova.

4
Passando pelo ranchinho
Do nosso herói, no caminho
Pediam um copo de água
Só pra umedecer a mágoa.

5
Mas, ai, que o pobre vaqueiro
Santino, (era o seu nome),
Que não era desordeiro
Resolveu vencer a fome.

6
E saindo do cercado
Se pôs na frente do povo
Dizendo que tinha achado
Saída prum Mundo Novo.

7
Montado num rocinante
Com seu gibão costurado
Todo assim ataviado
Era muito impressionante.

8
O pobre povo prascóvio
Precisando de um guerreiro
Da Fé, o que era óbvio
O seguiu mais que ligeiro.

9
Andaram por esse Sertão
Até chegar num grotão
Que havia nos Angico
Não muito longe do Chico

10
A grota que dava medo
Do finado Lampião
Devia ter um segredo
Que causava confusão.

11
Foi ali que os cangaceiros
Tinham buscado a entrada
Do Reino dos Cavaleiros
Pra fazer sua morada

12
Mas não houve tempo hábil
Pra descobrir os degraus
Chegaram os do fuzil
Pra acabar com bons e maus.

13
Santino que era parente
Do único sobrevivente
Sabia de um mapa gravado
Numa pedra ali ao lado.

14
O vaqueiro comandava
Com tão grande autoridade
Que o povo até aceitava
Procurar na Eternidade

15
Foram morrendo afinal
Em torno do Peão Santo
Só sobrando o General
E mais dois ou três, se tanto.

16
Foi na seca de Noventa
Ou de que outro ano for
Que a Ciência sempre atenta
Resolveu mandar doutor

17
Os homens da Faculdade
Procurando uma cidade
Perdida nesse Sertão
Deram com aquele grotão

18
Se foi sorte ou foi ciência
Se foi simples coincidência
Não se sabe, nem importa
Pois achou-se, então, a porta

19
E os degraus tão procurados
Que levavam ao Salão
Do grande rei Sebastião
E os seus barões destacados

20
Mas o que impressionou
Aqueles doutos senhores:
A gruta se transformou
Num Palácio dos Horrores

21
No grande trono mediúnico
Tendo ao lado seu ministro
Santino Primeiro e único
Fitava com olhar sinistro.

22
Seu gibão como couraça
De couro o chapéu, coroado
Trazia na mão, dourado
O grande Cetro da Raça

23
As perneiras tão ornadas
De cadarços e fivelas
Eram suas botas fadadas
A pisar nas caravelas.

24
Seu exército já sem sede
No recinto semeado
De pilastras para rede
Tava ali, mas assombrado.

25
Não faltava nem bufão:
Aos pés do grande monarca
Jaziam os ossos do anão
Mais famoso da comarca.

26
No grande salão da esquerda
Nova surpresa mostrou
A imensidão da perda
Que o mundo nunca sonhou:

27
Um exército cadavérico
De um milhão de soldados
Com seu aspecto feérico
Legião de deserdados.

28
Reinando com ar arguto
Santino, o rei que venceu
Foi visto por um minuto
E depois desvaneceu.

FIM

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Romance da menina que não chorava (Cordel de autoria de Guilherme de Faria)_


1
Neste trecho do mundo,
Aquém das franjas do mal,
Aqui, num vale profundo
Vivia um pobre casal

2
Que só queria uma filha
Para completar a vida,
Já que o amor é uma ilha
Cercada e quase perdida

3
Num oceano de mágoas
De rancor e frustração,
Cujas ondas, cujas águas,
Ameaçam o coração.

4
Mas esse casal escolhido,
Por viver tão isolado
Parecia imunizado
Contra a inveja e o olvido.

5
Sua fé era o bastante
Pra consagrar o instante,
Apesar do aparente
Leito estéril em sua corrente

6
Assim, de tanta esperança
Nasceu afinal a filha
Como uma nascente ilha,
Abençoada criança.

7
A terra seca, inteira,
De repente florecia:
Mandacaru, macaxeira
Milho, feijão na bacia.

8
Rosamunda foi o nome
Com que o casal a batisou
E de rosa o seu renome
Para o mundo a que voltou

9
Pois o ser iluminado
Já devia ter vivido
Por esse mundo cansado
E o segredo ter sabido

10
De como viver a vida
E mesmo ter resolvida
A questão que colocamos:
“Quem somos? Pra onde vamos?”

11
E apesar de ser guria,
E só por isso tão pura,
Ela era uma mistura
De fé e sabedoria.

12
Ainda lenbram seus vizinhos
O dia em que sua cabrinha,
Que era tudo o que ela tinha
Morreu entre seus bracinhos

13
Sem que ela deplorasse,
E sem que a Deus indagasse
O porquê daquela morte,
Sem imprecar contra a sorte.

14
E ela mesma a enterrou,
Por sua mão, no terreiro,
Sem gemidos, sem berreiro,
Fato que o povo lembrou

15
Mais tarde, afinal, e quando
De todos se despediu
No final do mês de Abril,
Sorrindo e abençoando.

16
Esse ser feito de amor
Parece ter só vivido
O tantinho percebido
Entre a fé e o louvor.

17
Pra que o povo tão sofrido
Tivesse a emulação
De alguém ter conseguido
Só viver pra louvação.

18
Por isso o povo ainda lembra
E venera, cria a lenda
Da menina que sorria
Quando sua cabra morria.

19
Pois Rosamunda, a menina,
( ainda a trago na retina)
Iluminada e feliz
Como o povo sempre a quis,

20
Veio somente ao mundo
Pra ensinar a viver,
Que consiste num profundo
Sim à vida... e ao morrer

21
Teve o nome consagrado
Entre nós como santinha,
Só por não ter chorado
Uma só vez na vidinha.

FIM

28/11/2004

domingo, 27 de janeiro de 2008

Protótipo do Pavão Misterioso, de madeira, criado por Guilherme de Faria







Este "Pavão Misterioso" é um objeto de arte, feito inteiramente de madeira, sem pregos, colado e com cavilhas (e assinado) a partir do design do próprio artista em xilogravura criada para ilustrar a capa do folheto de sua versão do tema do Romance do Pavão Misterioso, tradicional do cordel nordestino.( Curiosidade: um mecanismo de madeira com duas pequenas alavancas faz abrir e fechar a cauda em leque do pavão).

Um Outro Pavão Misterioso

(cordel de autoria de Guilherme de Faria)

1
Ouça agora minha gente
Uma estória de chorar.
Não verá mais comovente
O povo deste lugar.

2
Foi começo da desdita
Desta terra do Sertão
Uma moça tão bonita
Que igual se viu mais não.

3
Não era princesa de sorte
Mas era de condição,
Por ela comanda a Morte
Sete guerras no Sertão.

4
Morreu gado morreu gente,
Fazenda mudou de mão,
Mudou o rumo do mundo,
Só o seu não mudou não.

5
Essa moça tão formosa
Vivia pro coração,
Estava ficando famosa
Por causa desse condão.

6
Seu pai era um um rei da terra
Homem afeito à guerra,
Menos cruz e mais canhão,
(mas no fundo um hóme bão)


7
Queria pra sua filha
Palácio de maravilha,
Montanha de rapadura,
Açude de grozelhão.

8
Entre sina e sinecura
Não adiantou a ternura,
Não muda o querer da gente
O fado ruim de um vivente.

9
Estava escrito que Creusa
(esse o nome da princesa)
Por tão amorosa ser
Muito havia de sofrer

10
Por um moço carinhoso
Um tal José Engenhoso,
Pobre como um faquir
Não podendo competir

11
Com o filho do coronel
Que se pavoneando
Vivia só rodeando
Como uma mosca no mel,

12
Então construiu maquinário
Feito de ferro e de galho
Com a forma de um pavão
Movido à força e paixão.

13
E com este estratagema
Com aqueles olhos de gema
Voou por esse sertão
Com motor de combustão.

14
O povo vendo voar
Aquele estranho avejão
Dizia que tinha chegado
A redenção do Sertão.

15
Que a terra aguardasse água,
Sem enchente como duna
De um dilúvio sem mágoa,
Sem a arca como escuna.

16
Sem rola, graúna e até
Sem casal de hienas risonhas,
E sem as duplas bisonhas
Do patriarca Noé.

17
O verde que ia voltar
Traria o prazer da vida
E a fartura tão querida
Pro povo daquele lugar.

18
Mas, ai, que o travo do Mal
Não deixa um gosto vingar,
Já se armara o seu rival
Com canhão de militar

19
Ao saber que o moço a bela
Já lhe tinha arrebatado
Por expresso gosto dela
Que se tinha apaixonado.

20
Voavam os dois abraçados
Por cima dessa caatinga
Quando fogos cerrados
Partiram da seca restinga

21
Formando nuvem vermelha
Em volta do Avejão
Produzindo uma centelha
Que causou a explosão.

22
Não adianou voar de esguelha,
Nem lupim nem parafuso,
Pois nessa teia, o fuso
O Fado é que tem na mão.

23

Caiu por terra o casal
Caiu por terra o Pavão
Caiu pra sempre o ideal
De haver chuva no Sertão.


FIM

2001

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Romance da Doralice (Cordel de Guilherme de Faria)



Capa da versão espanhola do Romance da Doralice (o próprio autor verteu-o para o idioma castelhano).


Romance da Doralice


1
Vou contar uma estorinha
Que aqui o povo evita
De Doralice, mocinha
Mais jeitosa que bonita.

2
Tinha um tal jeito de ser
Que sem ser provocativa
Seduzia sem querer
Como uma locomotiva.

3
Quer dizer: era acintosa
Na sua mulherice
Que fascinava sem prosa
Desafiando a Burrice.

4
No entanto não se podia
Dizer que era faceira
Tentadora ou vadia
Ou ainda, interesseira.

5
O seu corpo é que falava
Malgrado sua vontade
E isso é coisa que se agrava
E leva ao desastre mais tarde.

6
A moça vivia com a tia
Laudência, mulher sensata,
Desde que a sorte ingrata
Levara sua mãe Maria.

7
Acontece que chegou
Vindo de outra cidade
Certo filho da Vaidade
Cujo pai enviuvou.

8
Era o primo Josafá
Moço que não sendo guei
Vaidoso como um paxá
Dizia entrando: - Cheguei!

9
Fazendo com os polegares
Estalar os suspensórios
Dando a medida e os ares
De tantos casos inglórios.

10
Cabelo muito esticado
Com aquela gomalina
Um bigodinho safado
De pontas viradas pra cima.

11
Sussurrou coisas no ouvido
De Doralice corada
Que ficando envergonhada
Fugiu procurando abrigo

12
Dali pra diante perdeu
O sossego e a candura
E seu corpo se excedeu
Na beleza e na postura.

13
Por isso não se podia
Culpar o nosso idiota
Que a moça é que seduzia
Primeiro, é o que se nota.

14
Resumindo: eles fugiram
No fordeco do janota
Rumo ao Recife, sumiram
Não cogitando da volta.

15
Doralice evaneceu
Sua pista se perdeu.
Não mandou nenhuma carta
Por um ano dessa data.

16
Quando chegou um cartão
Dizia: “Querida Tia
Saudade. Peço perdão,
Mas ficar eu não podia."

17
"Sigo a sina do meu corpo:
Estou feliz num bordel
Neste Recife do porto
Nesta estória de cordel."

18
"Como nunca acreditei
Nisso de “vida real”
Canto, danço e melhorei,
Não me encontro nada mal."

9
"Cumpro o destino da pele
Não brigo mais c’o Desejo
Quando quero, logo beijo
Mesmo que o destino sele."

20
"Algumas moças também
Como eu têm vocação
Outras choram, sem noção
Da beleza que isso tem."

21
"Não percebem que o segredo
É o amor da profissão,
Que quem ama não tem medo
Não precisa confissão."

22
"Não tem do que se pejar
Pois já está na salvação
A vida é o fumo no ar
E a beleza da canção."

23
"À noite somos estrelas,
De dia, que preguiçosas!
No Porto somos famosas,
As horas, porquê temê-las?"

24
"Há poesia na pobreza
Por quê aqui não teria?
Este luxo, esta riqueza
Sem a gente não havia."

25
"Toques do corpo e da alma
É nossa especialidade.
Quando um carente se acalma
Sinto que vivo a Verdade."

26
"As choronas me desculpem
Mas perdem a oportunidade
De formar mentalidade
Que a alma e o corpo esculpem"

27
"Pois quando eles se unem,
Corpo e alma, nesta lida,
Não há mais “mulher da vida”:
Há beleza, como nuvem."

28
"Eu estou persuadida
Que a minha felicidade
Vem de dentro, na verdade.
Sim, eu sou mulher da Vida!

29
"Por isso, minha titia
Não lamente, eu não lamento
E sou grata em pensamento
Pela sua simpatia"

30
"Pois seu silêncio profundo
Ajudou-me a compreender
Essa beleza do Mundo
Que é amar tudo, e Viver!”

31
"Se antes fui caradura
Digo agora sem pieguice
Que não perdi a candura
Muito menos a meiguice"

"Grata por sua brandura
Com amor, sem mais,
DORALICE "

FIM

25/07/2001

Romance do Palhaço (cordel de Guilherme de Faria)



Romance do Palhaço
(cordel de Guilherme de Faria)



1
Chegou nesta região
vindo de lá do Catende,
um pobre circo mambembe
que percorre este sertão.


2
Com a lona costurada
de mil remendos, armada
como colcha de retalhos
pra não dizer de frangalhos.

3

Este circo, diz o povo,
deixa no rastro a desgraça
mas é coisa de invejoso,
que o povo aceita de graça.


4
O cortejo entrou saudado
pelo amor da criançada
e pelo povo encantado
que não poupou gargalhada.


5
O desfile dos palhaços
pela única ruela
da nossa vila amarela
roída pelos mormaços


6
Foi acontecimento
único e memorável
desde o meu nascimento
nesta vila deplorável.


7
Pois no meio do desfile
havia, vinda do Chile,
uma linda bailarina
vestida de Colombina.


8
Na rua ela saltitava
de tiarinha na testa
fazendo da vida uma festa
por onde ela passava.


9
Com o seu olhar brilhante
flertava a todo instante
com os matutos na calçada
enquanto ela desfilava.

10
Dolores De Sierra Madre
de tocar ainda tinha
o coração do bom padre
da nossa pobre igrejinha.


11
O padreco até então
era um moço impecável
dedicado á religião
de um modo admirável.


12
Mas a moça deu de entrar
na igreja de saiote
e pediu pra confessar
“con el alma en un garrote”.


13
O padreco, perturbado
com a visão da beleza
mandou de volta o “pecado”
pra que voltasse “ pureza”.


14
Foi só então retornar
do seu carroção a chilena
que no meio da novena
o padre já estava a suar.


15
O que a moça confessou
com tanto arrependimento
não sabe nem o escritor
que lê o seu pensamento.

16

Pois se alguma coisa for
mistério sem solução,
uma é a Confissão
outra será o Amor.


17
Mas depois da confissão
o padre saiu da igreja.
Não foi visto desde então
nem na hora da cerveja.


18
As beatas numa grita,
na sacristia, em coro,
exigiam seu decoro
e a expulsão da maldita,


19
quando o padre deu entrada,
para espanto das coitadas
com a batina picotada
e as faces brancas, caiadas,


20
Uma lágrima pintada
de preto e o nariz vermelho,
a boca muito alargada
e a calva como um espelho.


21
Ser reconhecido havia
só depois do susto e meio
daquela beataria
que já gritava sem freio.


22
O padre por elas passou
e bem defronte, na praça
abrindo os braços saudou
como num final de farsa.


23
E entrando no carroção
zarparam depressa, então,
como a nau da insensatez
desatracada de vez.


24
O povo a lenda incentiva,
mas eu perdi, desconfio,
o rastro da comitiva
ali na curva do rio,


25
Quando aquela retirada
vinha sendo acompanhada
pelo olhar deslumbrado
da criança retornada


26
que eu me tornei desde então
vendo aquela colombina
abraçada a uma batina
na porta de um carroção.

FIM

26/07/2001

ROMANCE DO NAVIO ( Cordel de Guilherme de Faria)





Romance do Navio
(cordel de Guilherme de Faria)

1
Cumpadre, estou construindo
Este navio há uma data
Uns trinta anos, mentindo,
E quarenta, mais exata.

2
Porque a madeira é minguada
E quando chego co’a popa
A proa já tá empenada
Deste sol que não me poupa.

3
Mas sei também que não há
De ficar pra sempre assim
Encalhado na areia sem fim
Dessa seca terra má.

4
É só esperar a enxurrada
Que na certa há de subir
A prova é essa conchaiada
Espalhada por aí

5
“O Sertão vai virar mar”
Já dizia o Conselheiro
É questão de esperar
Trabalhando o dia inteiro.

6
Larguei os filho e a Cida
Mas um inté ajudou
Por uns três anos, na lida,
Mas depois me abandonou.

7
Sonho é dificultado
De sonhar junto e unido
A gente que vive acordado
Pretensioso e presumido

8
Prefere ter esquecido
O que a alma diz no ouvido;
Não põe fé, nem põe sentido
Nesse mundo adormecido.

9
Mas porque havera Deus
De fazer ele mais forte
Do que a gente sob os céus
Acordada, mas sem sorte?

10
Nunca vou acreditar
No arrastar dessa vidinha.
Se ainda não veio o mar
Não é culpa sua nem minha.

11
Nem é culpa do meu sonho
Mas dessa desesperança
Do pobre povo bizonho
Que o sentido não alcança

12
Deste meu forte sonhar
Que me mantém antenado
Com o mar distanciado
Que ainda há de voltar.

13
Uma vez na areia vi
Grande máquina pintada,
Enterrada até aqui,
Muito bela e destroçada

14
No sertão do Cariri
Topei com ela, assustado.
O rabo tava enterrado
Mas na proa eu inté li

15
O nome daquilo ali
Inda que de letra eu manque:
Era Anauque ou Ananque
Coisa que desentendi.

16
Tive inté necessidade
De oiar bem mais de perto
Com muito medo, é verdade,
Mas co’aqueles óio esperto.

17
Quando o rabo puxei
Consegui, desenterrei,
Quase caí, desmaiei
Vendo aquele leque guei:

18
A miríade de olhos
Azul e verde irisado
No verde tão salpicado
Como no mar os abrolhos.

19
Tinha umas asas também
Destroçadas, sem costura,
Mas pela envergadura
Devia voar muito bem.

20
Depois o povo me disse
Que houve inté quem o visse
Voando neste sertão
Como a nave do Gusmão,

21
A Passarola do padre
Você sabe, meu cumpadre,
Um louco que aqui vivia
No tempo da minha tia.

22
O povo então intuiu
Que o doido que construiu
O Pavão, também morreu
Na queda em que faleceu.

23
Mas antes esse Nordeste
Espantou de Norte a Leste
Deixando bom material
Pra cordel e pra jornal.

24
Que virou inté cantiga
Que apesar de meio antiga
Embala hoje os menino
E deu cordel muito fino.

25
Assim também meu navio
Há de vagar no Sertão
Porque quem o construiu
Pode enfrentar vagalhão.

26
Eu reclamo que essa gente
Já me chama de Noé
Pois meu nome simplesmente
Não passa de Manoé

27
Não tenho bode e cabrinha
Para botar de casal
Nem o galo e a galinha
Nem qualquer outro animal.

28
O jegue que me ajuda
Carregando essa madeira
O seu destino não muda,
Nunca teve companheira

29
Mas eu e ele sozinho
E mais a nossa carranca
Vamos espantar o povinho
Que até hoje não se manca

30
Dos seus erros e entraves
E da tal desesperança
Um dos pecados mais graves
Que marca desde criança.

31
Pois quando a água voltar
Vai redimir o Sertão
Para quem sobrenadar
Seja navegante ou não.

32
E quando a água baixar
Quem viver reviverá
Andando sobre um lugar
Mais verde que Chão-de-lá

33
Onde o aceno da mão
Deixando cair semente
Vai fazer se abrir o chão
Para a colheita da mente,

34
Que tudo se passa somente
Nesse reino encantado
Da alma, ente encarnado,
Que assim vive eternamente.

35
Agora, moço, s’imbora
Para o trabalho assumir
Pois nunca se sabe a hora
Em que a maré vai subir.

FIM

26/05/2006

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Romance da Encantada (cordel de Guilherme de Faria)



Companheiros ou A Encantada- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 50x50cm, coleção particular, São Paulo, Brasil.


1
Agora vou exaltar,
Tecer loas e glosar
Primeiro a quem de direito,
De muito pouco defeito.

2
Havia no Catolé
Um vaqueiro iluminado
Que era também José
Como tantos a seu lado

3
Mas que conseguiu comprar
Para si uma vaquinha
Daquela tropa inteirinha
Que ele tinha de tocar.

4
Mas isso era novidade,
Não se vendo até ali
Um vaqueiro de verdade
Com uma vaca de si.

5
Era muito descarnada
E não se sabe porquê
Batizada de Encantada,
Difícil até de se ver

6
Mas fácil de distinguir
Porque tinha um anu
No lombo como urubu
Que só mais tarde há de vir.

7
Era a mais bichada e seca
Daquele grande curral
Do coronel Fonseca
Um patrão quase normal.

8
Não criava ou dava leite
(tô falando da Encantada)
Co’a magra teta de enfeite
Como prega pendurada.

9
Mas o José recebeu
Uma carta de um irmão
Lida até pelo patrão
E que muito o comoveu

10
De que sua mãe é morta
Caída no chão da horta
E que o irmão desejava
Que depressa ele voltava.

11
José então decidiu
Sua vaquinha apartar
E pra sua terra partir
Antes que fossem secar

12
Longe da terra amada
Comendo da horta alheia
Chorando água emprestada
Não chegando nem de “a meia”.

13
Pediu a conta ao Fonseca
Pagou o que não deveu
Como o tributo da seca
(Só então se apercebeu...)

14
Mas decidiu relevar
Para poder escapar
Desse destino ilusório
E não faltar no velório.

15
Sem um troco no gibão
Que ele conseguiu manter
Tratou de se escafeder
No rumo desse sertão.

16
A vaca que lhe restava
E que escapou da patranha
Foi ficando meio estranha,
Trambecando, se arrastava.

17
No meio da caatinga
Já o anu a abandonava
Que agora um urubutinga
Na cacunda lhe pousava.

18
E deram co’a forma intrusa
De um tipo de um romeiro
C’uma capa de bombeiro
Vermelha e abstrusa,

19
Que saudando c’ um cajado
Que parecia um forcado
Botou preço na Encantada
Invertendo sua cartada.

20
O José levou a mal
Uma tão grande intrusão,
Que, por sua decisão,
Não deixava o animal.

21
E ele havera de vender
A boa daquela vaquinha,
Depois de tanto sofrer
E sendo tudo o que tinha?

22
Então logo o despachou
Que lhe acenava o romeiro
com um rolo de dinheiro
Que ele agora desprezou.

23
E fazendo o vade-retro,
(que não mais o enganava),
Só faltando meio metro
Ele quase o esfaqueava.

24
E seguiu com a Encantada
Mais um dia na chapada
Até que a pobre ajoelhou
Co’as “mão” da frente e rezou

25
A reza lá dela, é claro,
E morreu sem um mugido
De suspiro, fato raro,
Aos santos atribuído.

26
O José só não enterrou
A amiga, porque o chão
Era tão duro, era tão,
Que nem buraco aceitou.

27
O vaqueiro então fez
Uma prece e agradeceu
A dádiva daquela rês
Que a vida lhe ofereceu

28
Co’aquele ser puro e claro
Que o tinha conduzido
( também outro fato raro )
Por um caminho comprido

29
Mas limpo e descomplicado,
Cheio da singeleza
Das lembranças de beleza,
De um vaqueiro destinado.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Romance do Furdunço (cordel de Guilherme de Faria)




Romance do Furdunço
(cordel de Guilherme de Faria)


1
Amores, sonhos, virtude
São coisas que eu nunca pude
Realizar com clareza,
Me desculpem a afoiteza

2
De logo ir contando assim
Os podres da minha vida
Que não foi nem escolhida
Nem tão falhada, enfim.

3
Mas eis um sonho que eu pude
Realizar em plenitude:
Fazer um cordel fecundo,
Contando as coisas do mundo.

4
“O poeta­­”,disse Keats,
“não deve ser moralista”.
E nisto estamos quites:
Bom poeta é anarquista,

5
Quer dizer, não temos rei
Nem governo imperialista.
Democracia terei
No “Dia do cordelista”.

6
E agora dito isso
Vou contar um causo estranho.
Deixa eu enxugar o ranho
Que já começo o serviço.

7
Pois bem, havia um jagunço
Na minha terra de outrora
Que gostava de furdunço
Desde que fora de hora.

8
Entrando um dia na igreja
Convidou a freguezia
Pr’uma festa que faria
Sem admitir peleja.

9
Refiro peleja mesmo
Não aquelas “de repente”
Regadas a pinga e torresmo
Mas sem matança de gente.

10
O povo ressabiado
Quis ao menos levar faca.
Disse o jagunço engraçado:
“Só pra quem levar sua maca”.

11
Nos marcados hora e dia
Começou chegando o povo,
A sanfona já rangia,
Na zabumba Mestre Corvo.

12
Um músico com essa alcunha
Com fama de aziago
Pois pegou o cargo vago
Quando matou Mestre Cunha.

13
O triângulo, de bermudas,
Tocava feito um demônio
Parecia Mestre Judas
Tocando pra Santo Antônio.

14
O sanfoneiro (esquecia)
Era filho de Maria
Mas de Maria Joana
Que era uma velha sacana.

15
Havia também uma flauta
Do osso de uma canela
Mas não de pau-de-canela
Mas da canela do Malta,

16
Um antigo delegado
Que morreu estraçalhado
Pela jagunçada amiga
De um furdunço sem intriga.

17
Então lá pras tantas horas
O forró correndo solto,
Pinga e licor de amoras,
Só tendo morrido o Couto

18
E talvez o velho Pacheco,
Que esse já tava seco
E já foi embora tarde
( pimenta no outro não arde).

19
E mais dois ou três, se tanto,
Pois que tando desarmado
O povo jogava pr’um canto
E persistia animado.

20
Tô contando esse caso
Em louvor da nossa gente
Que sempre fez muito caso
De ser de paz e decente.

21
No fim da festa, surpresa!
Foi colocado na mesa
Um bolo imenso, branquinho
Doce como chantilinho,

22
De onde saiu um jagunço
De rifle armado e pistola
E começou o furdunço
Verdadeiro, sem esmola.

23
Foi bala pra todo lado
Tinha bala pra criança
Tinha bala com melado
De festim e de festança.

24
Só ficou vivo ninguém
E se afirmo o que disse
É que meu nome é “Ninguém”
Como o companheiro Ulisse.

25
Para contar a estória
Precisava um morto vivo
E eu sem contar não vivo,
Essa é a minha glória.

26
Agora que já contei
Passem logo a “mãe da besta”,
Saberão se não inventei
Se eu lembrar depois da festa.

FIM

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Romance dos tipos do sertão (Cordel de Guilherme de Faria)


Romance dos tipos do sertão - Memórias de Adão Ferreira
(Cordel de Guilherme de Faria)

1
Vosmecê, meu povo amigo
Já conhece a minha fama
De cantador meio antigo
Que em vez de cantar, declama.

2
Venho por essas estradas
Contando causo demais
Desse povo, nas noitadas,
E ainda tem muito mais.

3
Quanta gente conheci!
Quanta fé testemunhei!
Patranha também eu vi,
C’umas até concordei.

4
Mas dentre essa galeria
De tipos do meu sertão
Vou fazer presentação
Como a memória desfia.

5
Tem de tudo no meu álbum:
Vaqueiro, doutor, coronel,
Mulher, criança, e algum
Bandido cheio de fel.

6
Mas só para eu me lembrar
Vou descrever logo um tipo
Que me faz acreditar
Que pobre eu sou mas é rico.

7
Um avarento ridíco
Que morreu de inanição
Num trecho fértil do Chico
Oásis deste Sertão.

8
Esse rico indigente
Queria só exportar
O fruto de tanto suar
P’ras terras de outra gente

9
Para acumular dinheiro
Pro dia de precisar,
Juntando pra que ao herdeiro
Não fosse nunca faltar.

10
Mas ao morrer, cuidadoso,
Deixou um bilhete famoso:
“Me enterrem direto no chão,
Pr’eu economizar caixão”

11
“Que é muito desperdício,
Pois rede ou madeira e verniz
É coisa que eu nunca quis
Pr’os ossos do meu ofício.”

12
Tem também o causo ilustre
Dum coronel afamado
Que subiu no próprio lustre
Onde ficou pendurado

13
Só pra ver se flagrava
A patroa c’um peão
Que o leito compartilhava,
Seco como esse sertão.

14
O tiro veio de cima
E varou o coração
Dos dois, na última rima
Que restou nessa canção.

15
Até pro doutor legista
Foi difícil decifrar
De qual ponto de vista
Pôde assim se disparar.

16
Teve ainda um causo triste
D’um vaqueiro apaixonado
Que vivia de arma em riste
Mas sempre, sempre frustrado.

17
Pois o alvo da paixão
Tinha marido e filha,
Que no mar deste sertão
Ninguém vive numa ilha.

18
E o peão foi limpar
O campo de atuação
Numa mesa de bar
Onde armou discussão.

19
Depois de tiro acertar
Correu pro rancho rival
Não pra se confessar,
No que se deu muito mal

20
Pois a moça farejou
O sangue de seu marido
E da soleira aplicou
No peão um “pé do ouvido”.

21
“Fora, homem! Ocê não presta,
Que me tem enviuvado,
Cê matou homem honrado,
Honra é só o que me resta!”

22
E tem a estória escabrosa
De um vaqueiro feioso
Que resgatava a famosa
Tese do doutor Lombroso,

23
Que afirma que quem vê cara
Vê, por certo, o coração,
Desde que olhe para
A cara com muita atenção.

24
Esse ser mal acabado
Se apaixonou pela filha
De um vaqueiro calejado
De quem era a maravilha

25
Pois a moça era beldade
Pelo menos pro sertão
E com muita pouca idade
Já causava emoção.

26
E o vaqueiro Notredame
Que era corcunda e mancava
Como quem teve derrame
E mesmo assim trabalhava

27
Tinha um feio coração
Que no entanto comandava
A carcaça em sua paixão
E o vaqueiro obstinava.

28
Não sabendo se expressar
Em bela declaração
Decidiu foi raptar
A moça em camisolão

29
E manteve a prisioneira
Por três dias numa cova
O que pra ele era prova
De sua “paixão verdadeira”

30
Quando afinal encontraram
A moça já tava louca
E o vaqueiro enforcaram,
Que foi até coisa pouca:

31
Que a coluna do calhorda
Ficou retinha até
Estirada numa corda
Amarrada no seu pé.

32
Mas me perdoem esse causo
Que me parece impiedoso
Também creio que o descauso
Foi a causa e não Lombroso,

33
Pois se o pobre sem amor
Com a morte esticou um pouquinho,
Se criado com carinho
Saberia amor propor.

34
Ouçam agora a de um menino
Que ganhou uma viola
Quando ainda pequenino,
Bem maior que a sua bitola

35
Mas foi crescendo então
Todo em volta do instrumento
Que parece um segmento
Da costela desse Adão

36
Adão Ferreira, meu nome
Que aqui me apresento
Até com certo renome
Por causa do meu talento

37
Que é contar pr’ocês meu povo
Os causos de ocês mesmo,
Pra ocês se vê de novo
C’um pouquinho de torresmo

38
Que exagero é o colorau
Do contador afamado,
Pimenta de cheiro e sal
Para o causo ser lembrado.

39
E agora vou saindo
Deixando um gosto de pouco
Que é pr’ocês fica sorrindo
Do poeta meio louco

40
Que acredita na Poesia
Desse ser de maravía
Que é o homem comum,
Que são vocês: um a um!

FIM

Romance da Teia (Cordel de Guilherme de Faria)



1
Na vila do Tenente
Lá onde o Judas morou,
Vivia mulher valente
Que a Morte enviuvou.

2
Muito cedo ele findou,
Para quem tanto o amou,
E ela não carecia
Dos pretendentes que havia.

3
Penelópia a chamarei,
Já que sou testemunha
E o motivo dessa alcunha
Mais adiante lhes direi.

4
No entanto o expediente
Da teia não lhe ocorreu:
Resistia bravamente
Des’que o marido morreu,

5
Na base do clavinote
Carabina de bom porte
Que o marido já tinha
E deixou-lhe, com a casinha.

6
Penê, como eu a chamava
Uma caixa já esgotara
De munição e findava
Com a segunda que restara,

7
Não sabendo o que faria
Quando acabasse o chumbo.
Sua honra lhe doía
Como couro de bumbo.

8
Para ela era um espanto
Qualquer novo casamento,
Já que tinha amado tanto
E sido feliz tanto tempo.

9
O Destino em linha torta
Bateu-lhe afinal na porta
Com um moço forasteiro
Que chegou no seu terreiro.

10
Vinha meio extraviado,
Num pobre cavalo montado
Por uma cuia d’água
Pra si e pro seu Pintado.

11
Vinha dormindo na sela
Há dez dias como um Huno
Mas sem carne embaixo dela
E nem um pedaço de fumo.

12
Era um jovem apessoado
Mas estava piolhento,
De banho necessitado,
Que tava meio sebento.

13
Não parava de coçar
A cabeça, e de olhar
Com aqueles “óio” morteiro,
De fala mole, mineiro.

14
Bronco, belo, indefinido
Como um deus decaído,
Desavisado chegou,
Tanto que a desarmou.

15
Encostando o clavinote
Ela deixou-o entrar,
Banhou-o com água de pote
Pra depois o alimentar.

16
Levou-o até o seu leito
De viúva inconsolada,
Esquecendo o voto feito
E até a rede armada.

17
Mas não deitou-se ao seu lado:
Observou-o deitado,
Longamente, adormecido,
Como o “deus desconhecido”.

18
Fechou a porta, então
E depois pelo portão
Saiu pegando uma trilha
E andou um quarto de milha

19
Até uma cruz fincada
Quase na beira da estrada,
Que era o leito final
Do marido original.

20
E quase gritando falou:
“Sinésio me ouça agora,
E depois pode ir embora:
Seu mensageiro chegou!

21
Um homem puro e decente
Como criança inocente
Dorme sem medo e profundo
Como se bom fosse o mundo.

22
Deixe-me agora voltar
E armar novamente o tear
Posso contar nossa história
Sem carabina empunhar.

23
Passarei teu clavinote,
Qu’esse homem ostentará
Defendendo o nosso dote...
Sinésio, vai descançar! ”


FIM

Romance da bela oleira





(Cordel de Guilherme de Faria)


1
Foi aqui, meu camarada,
Nesta olaria arruinada
Que conheci a Maria,
Do próprio barro encantada.

2
Moldada da mão de Deus,
O nosso Supremo Oleiro,
Maria “dos olhos-meus”
Como disse um violeiro

3
Era a única beldade
Em toda esta região,
Sua fama, de verdade,
Espalhou-se no sertão

4
Pois a nossa bela oleira
Da cor mesma de uma telha
Tinha uma bela maneira
De erguer a sobrancelha


5
Sem que ríctus parecesse
Daquela Lilith, não Eva:
Por mais que a bela excedesse
Passava longe da Treva.


6
Não tinha pois procedência
A calúnia que correu,
Quando o moço apareceu
Enforcado na Querência.


7
O povo só tinha visto
A moça ser perseguida
Pela presença atrevida
Do filho de Pedro Xisto

8
Que a despediu, o patrão,
Pra poder então matá-la
Sem chamar muita atenção,
E jogá-la numa vala.


9
Mas o povo a encontrou
Atirada, seminua
Em cima da argila crua
De onde se originou,


10
E a carregou na tábua
Mesma, em que põem a telha,
Agora bandeja de mágoa
Ardente como uma grelha.


11
E a expuseram frente a escada
Do casarão da “Querênça”
Durante uma madrugada
Cantando uma “Incelença”

12
Já era santa a beldade
Só faltava ascender
E pra isso o povo acender
A grande vela da herdade.

13
Que foi logo incendiada
Antes de raiar o dia
Enquanto aquela “famía”,
Correndo se arretirava.

14
Agora nem tico-nem taco,
Nem casa nem olaria,
Nem telhas, nem alegria,
Nem herdade, tudo opaco.

15
Mas a ruína da olaria
Com renitente beleza
Recorda a natureza
Cobrando a bela Maria.

FIM

28/11/2004

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Um Outro Pavão Misterioso (cordel de Guilherme de Faria)



Um outro Pavão Misterioso
(cordel de Guilherme de Faria)
Ouç’ agora minha gente
uma estória de chorar.
Não verá mais comovente
o povo deste lugar.
Foi no começo do reino
desta terra do sertão.
Uma moça tão bonita
que igual se viu mais não.
Não era princesa de sorte
mas era de condição.
Por ela comanda a Morte
sete guerras no sertão.
Morreu gado, morreu gente
fazenda mudou de mão.
Mudou o rumo do mundo
só o seu não mudou não.
Essa moça tão formosa
vivia pro coração.
Já estava tão famosa
que produzia canção
Seu pai era um rei da terra
De couraça de gibão
homem afeito à guerra
mas no fundo um home bão
.
Pra sua filha doçura
palácio de maravilha
montanha de rapadura
açude de groselhão.
Não adiantou a ternura
Não muda o querer da gente
o fado ruim do vivente
malgrado sua sinecura
Estava escrito que Creusa
esse o nome da princesa,
conquanto fosse uma deusa
fadada a muita tristeza
por conta de um moço pobre
Esse engenhoso José
Embora engenho lhe sobre
competindo estava a pé
c’o filho do coronel
que vivia arrodeando
a princesa cobiçando
feito uma mosca no mel
Então fez um avejão
todo de ferro e de aço
com o tipo de um pavão
movido à força e cansaço.
E com esse estratagema
por cima deste sertão
com aqueles olhos de gema
linda cauda do pavão
O povo vendo voar
aquele estranho avejão
acreditava chegar
a redenção do sertão.
Recuperada seria a Fé
sem aquela punição
do dilúvio de Noé
em arca de embarcação
Sem a rola e o corvo
sem casal de hienas risonhas
que são do leão estorvo
naquelas disputas medonhas
O verde que ia voltar
traria o prazer da vida
pro povo daquele lugar.
com muita água e comida.
Mas, ai, que a sorte fatal
não deixa um gosto vingar.
Já se armara o seu rival
com canhão de militar,
ao saber que o moço, a bela
já lhe tinha raptado
por expresso gosto dela
que se tinha apaixonado.
Voavam pois abraçado
por cima desta caatinga
quando fogo cerrado
partiu da seca restinga
formando nuvem vermelha
em volta do avejão
que já voava de esguelha
Com nostalgia de chão
Tentou lupim e parafuso
os recursos de avião
mas nessa teia o fuso
o fado é que tem na mão.
Caiu por terra o casal.
Caiu por terra o pavão.
Caiu pra sempre o ideal
de haver chuva no sertão.
FIM















quinta-feira, 4 de outubro de 2007


A viagem do Pavão Misterioso- óleo s/ tela, de 80x100cm de Guilherme de Faria, coleção particular, São Paulo.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Trovas Pícaras II e III (de Guilherme de Faria)

17/05/2006

À poetisa gaúcha Alma Welt

Trovas Pícaras II

1
No século passado
Me causava certa estafa
Ver um jeito ultrapassado
De dançar c’uma garrafa.

2
Era uma dança arriscada,
Pois de um modo meio afoito,
A guria, nesse coito
Podia ficar entalada.

3
Mas isso já tá antigo,
Foi antes da moda do umbigo
Que veio, por sua vez,
Antes da total nudez

4
Que veremos muito em breve
Pois que covinhas e pêlos
Já produzem seus desvelos
Pelas calçadas sem neve.

5
Na nossa terra estrangeira
Quase tudo se desfez,
Pois metade fala o inglês
E a outra metade, besteira.

6
Vou voltar pra Passo Fundo
Onde deixei uma “china”,
Pois a china deste mundo
Faz pastel, tem perna fina.

7
Outrora eu tive um amor
Que me ensinou a amar;
Mulher que só tem pudor
Nada consegue ensinar.

8
Por isso gosto daquelas
Que chegam tirando tudo
E uivam como cadelas,
Nada de cinema mudo.

9
Mulher assim é perfeita
E merece meus louvores;
Não regateia favores,
Não me faz essa desfeita.

10
Agora, minha audiência,
Pelos risos, gargalhadas,
Percebendo a anuência
Vou abordar as galhadas:

11
Um par frondoso de guampa,
Em geral é uma tampa
Pr’um conteúdo imundo,
Não há injustiça no mundo...

12
Por isso tome cuidado
Pois denota tua galhada
Um fracasso redobrado:
Não tens nem mulher, nem nada.

13
Esse negócio de trova
É começar e coçar
Por isso não paro, eis a prova:
Pela treze vou passar.

14
Se poder é documento
Leonardo nada seria.
Tô falando do Da Vinci,
Não do “Veni, vidi, vinci...”

15
Com dinheiro a mesma coisa:
Não chega a ter importância,
Haja visto o triste Soiza
Que não ganhou relevância

16
Nem com o seu mausoléu
Que não o levou ao céu,
Mas deixou-o sob a lousa
C’um erro: “Aqui jaz o Souza”

17
Senhorita (eu concluo)
De dançar eu tenho medo,
Porque quando danço eu suo
E quando suo eu fedo.


Trovas Picaras III


1
Amigo, peide a vontade,
Já que ocê tanto gosta:
Quem semeia tempestade
Certamente colhe bosta.

2
Se perguntam eu replico,
Pode ser um fato oco:
O Tinoco sem Tonico,
É pinico ou chapéu coco?

3
Não é que eu faça pouco
Nem tampouco dou descaso
O veínho meio rouco
Ainda é um arraso.

4
Quem dinheiro só investe,
Merece aposta ou a peste?
Quem não vive e só poupa,
Enterrem pelado, sem roupa.

5
No meu fraco entendimento
O maior gênio do mundo
É o inventor do catavento
Que se chamou Giramundo.

6
Mas a maior invenção
Não foi o motor a explosão
Mas a cama e o travesseiro
Para o sono do guerreiro.

7
Amigo, seja bem vindo
Mas deixe o rifle na porta
A faca entregue ao Benvindo,
E tire o cavalo da horta.

8
Meu amor pediu dimdim
Mas jurou fidelidade:
Pede grana só pra mim,
Pros outros é só caridade.

9
Minha sogra solta pum
Mas com tal grandiosidade,
Que teve cinqüenta mais um
Pra prefeita da cidade.

10
Tive um amigo sovina
Que me mostrou seu amor:
Deixou”valva” de latrina
Pr’ eu na minha casa por.

11
Casamento era loteria
No tempo da mocidade.
Hoje é bingo e padaria,
É “voltinha na cidade”.

12
Vou voltar pro meu Crato
Onde mulher se respeita:
Só dá mediante contrato,
Não anel na mão direita.

13
Esse contrato é antigo
No cartório e na Igreja
Exige um padre amigo
De uma roda de cerveja

14
Pois na hora da manguaça
Babau voto de sigilo,
E ocê saberá de graça
Se ela “fê-lo porque qui-lo”.

15
Tenho pena do coitado
Que no banco põe dinheiro:
É guardar frango pelado
Com a raposa do banqueiro.

16
Outrora eu tive “patroa”
E um “amigo fiel”:
Ele mostrou-se à toa
E ela não honrou seu véu.

17
Mas não lhes guardo rancor:
Polindo minha galhada
Encontrei um novo amor,
Meio feia e desdentada.

18
Pois depois da água quente,
Não quis mais gata no cio.
Preferi moça decente
E de quem nem desconfio.

19
Amor, sucesso, dinheiro;
Destes três, só no primeiro
Tu podes confiar
Se dentro em ti, o guardar.

20
Os outros dois, vêm de fora
E ocê não sabe de onde:
É como a moda, o “da hora”,
É comprar passe de bonde.

21
Quando chegar minha hora
Já não irei mais embora
Aqui ficarei porfim,
Quieto, esperando... e FIM

domingo, 26 de agosto de 2007

Romance da Jaqueira Maldita ( Cordel de Guilherme de Faria)



1
Vou lhes contar em verso
Uma estória muito triste,
De tema controverso
E que não aceita chiste.

2
Na curva seca do rio
Tem a casa da desdita
Onde viveu esse trio
Sob a jaqueira maldita

3
Uma moça e seu irmão
Bonitos como ninguém
Moravam neste sertão
Sem precisar de vintém.

4
O seu pai, um cordoeiro,
Com o sisal tinha a lida
E vivia o ano inteiro
De uma única partida.

5
O casal, que foi crescendo
Vivia tão isolado,
Que só a si mesmo vendo
Se tornou apaixonado.

6
Brincando de esconde-esconde
Para melhor se encontrar,
Sempre faziam por onde
Poder logo se abraçar.

7
Que risos! Que transparência
Nestes dois transparecia,
Neste Reino de Inocência
Do amor que os unia !

8
Descontando os desmazelos
E também suas mazelas
Eram criaturas belas
Com os seus longos cabelos

9
O “casal”, assim chamado
Pelo pai tão distraído,
Vivia sincronizado
Como um ser que fosse unido.

10
De nome eram Téia e Lino
Mas só pra efeito, mais tarde,
Quando a faca do Destino
Reduziu-os à metade...

11
Apareceu do outro lado
Desse rio malfadado
Um par de olhos, sombrio,
Que era de um certo tio.

12
Homem mesquinho e frio
Destilou o seu veneno
Que atravessou o rio
E veio ganhar terreno

13
Na mente do seu irmão
Que vivia até então
Naquela mesma candura
Do parzinho de alma pura

14
Produziu-se a corrosão
Do veneno em sua mente,
E também no coração,
Para ver maldosamente.

15
Começou por proibir
As saídas do casal
Que só eram de quintal,
Que nem tinham onde ir.

16
Não podiam simplesmente
Jogar a cabra cega
Ou brincar de pega-pega
Que virou coisa “indecente”.

17
O casalzinho num triz
Mudou de alegre a infeliz
Téia vivia a chorar
E Lino a se revoltar.

18
Então, numa discussão
Que o pai teve com Lino
Aconteceu a explosão
Que selou o seu destino.

19
O jovem de alma exaltada
Não aceitou desaforo
E por ter o seu decoro
Resolveu pegar a estrada.

20
Téia correu uma légua
Atrás do Lino na égua,
Até cair sobre o solo
E voltar do pai no colo.

21
Daí pra diante, se viu:
Essa moça definhou
Foi secando com o rio,
Nunca mais se levantou

22
O velho a enterrou
Chorando de dar dó.
Antes seu cabelo cortou,
Com a garganta num nó.

23
Nó que vinha anteceder
O que viria, afinal,
Depois da corda fatal
Com aqueles cabelos tecer.

24
O sinistro nó correu
Na jaqueira amarrado,
E pelo pescoço, enforcado,
O velho logo pendeu.

25
Um metro acima do piso
Pela corda sem sisal
Pois o velho, afinal,
Já tinha perdido o siso.

26
O povo que aqui se esgueira
Faz da cruz o sinal
Diante daquela jaqueira
Com sua trança fatal.

27
Qual musgo ela ainda pende
Passando despercebida
Pra quem nunca se arrepende,
Pra quem não sabe da vida.

FIM
25/07/2001

Romance do Leitãozinho (cordel de Guilheme de Faria)


O meu cordel ROMANCE DO LEITÃOZINHO é um dos poucos cordéis de minha autoria que se baseiam em estória real, acontecida mesmo, e que me foi contada por uma sertaneja mineira de 17 anos, que era empregada na casa dos meus pais quando eu também tinha 17 anos. Passados quarenta anos eu ainda me lembrava de sua narrativa e então a transformei neste cordel em homenagem à linda Maria, por quem me apaixonei depois de ouvir sua trágica estória, numa noite, na cozinha, enquanto minha mãe dormia. Apesar do título, advirto que é uma história muito trágica. As pessoas muito sensíveis se preparem... ou não leiam.
Romance do Leitãozinho
(cordel de Guilherme de Faria, de 2001)
1
Vou contar ao Seu Doutor
Depois o doutor decida
Se uma tão grande dor
Pode perturbar a vida.
2
Nós vivia na roça
Na beira de uma estrada.
Nossa casa era palhoça,
Meu pai pegava na enxada
3
Eu no fogão ficava
Pra quentar sua comida
Mais tarde levava na lida
Onde meu pai se achava.
4
Minha mãe, se me lembro,
Morreu de febre terçã
E foi embora em Setembro
Quando nasceu minha irmã
5
Minha irmãzinha era loura,
Não pardinha como eu,
Com esta pele de moura.
E meu pai desentendeu.
6
Tinha o olho esverdeado,
A pele branca bem clara,
O cabelo cacheado.
Era uma beleza rara.
7
O meu pai mimava ela
Que vivia embonecada
Com tanta fita e fivela
Como num conto de fada.
8
Nem trabalho, nem estudo
Mas vestida de princesa,
Ela era uma lindeza
Co’as rendas, fitas e tudo.
9
No domingo a gente ia
Na aldeia co’a minha tia,
Todo mundo enfarpelado
Meu pai c’o terno riscado.
10
Nossa prenda da família,
Orgulho que não humilha,
Ia embonecada assim
Loura como um querubim
11
Na Praça, mas não ao léu,
Rodando em fila de dois
No fim da missa, depois,
Meu pai tocando o chapéu.
12
O padre pediu um dia,
Pro meu pai deixar Luzia
Ser anjo na procissão,
Que o povo fazia questão.
13
Minha tia não gostava
Da idéia de exibição,
Ser anjo em casa bastava
Não convinha mostração.
14
De noite junto ao fogão
Eu contava pra Luzia
Estórias de assombração
Enquanto a sopa fervia.
15
Ela me abraçava forte,
E eu queria tanto ela... )
Talvez com medo da Morte
Que ela via na janela.
16
Até que chegou o dia
Em que cessou a alegria
Quando caiu a cortina
Deste teatro da Sina.
17
Uma tarde, o pai roçando
(Eu não sei por onde ando...)
No outeiro se avistava
Seu vulto que ali lidava.
18
Minha querida irmãzinha
Que brincava no terreiro,
Correu para a cozinha,
Bem pra perto do braseiro.
19
Não sei onde ela mexeu:
Pulou brasa do fogão
E o seu vestido ardeu
Como tocha de balão.
20
E inteira ardia ela
Babados, laços, calcinha,
Rendas, fitas e fivela,
Gritando naquela cozinha.
21
Ela correu pro outeiro
Pela trilha do paínho
Marginada por inteiro
De arbustos no caminho.
22
O vento nela batia,
Ela mais e mais ardia
Naquele fogarão
Que até formava um clarão.
23
No pé do meu pai caiu,
Que abraçou o que viu,
E rolaram pelo chão
Em gritos e confusão.
24
Ele voltou com a filha
Nua nos braços robustos
E eu via, pela trilha,
Seus cabelos nos arbustos.
25
Que largando foi ela
Sua linda cabeleira,
Fio por fio na ladeira,
Como grinalda amarela.
26
E morreu devagarinho
Dizendo que me queria,
Estava rosada e gemia,
Rosa como um leitãozinho.
27
Então perdoe, doutor,
Sei que atrapalha essa dor.
Mas...na lembrança
Ainda arde a criança.
28
Agradeço a complacência
Que o doutor demonstrou.
Vou varrer com paciência
A vasilha que quebrou.
FIM
15/07/2001

____________________________

Como os meus cordéis já há muitos anos foram adquiridos pelas bibliotecas das principais Universidades dos Estados Unidos, e sabendo que são estudados por "brazilianists" dessas faculdades, resolvi facilitar um pouco o seu trabalho, adiantando uma tradução que fiz do meu próprio cordel:

The Suckling Pig Ballad
(Guilherme de Faria cordel, 2001)
1
I will tell you doctor
So the doctor decides
If such a pain
It can mess up our life.
2
We lived in the countryside
On the side of a road.
Our house was a hut,
My father took the hoe
3
I was at the stove
to heat his food
I later took it to his work
Where my father was.
4
My mother, if I remember correctly,
She died of tertian fever
And she left in September
When my sister was born
5
My sister was blonde,
She wasn't dark like me,
With this Moorish skin.
And my father was dazzled
6
She had green eyes,
Pale white skin,
The curly hair,
It was a rare beauty.
7
My father spoiled her
Who lived dolled up
With so much ribbon and buckle
Like in a fairy tale.
8
Neither work nor study
But dressed as a princess,
She was a beauty
With lace, ribbons and all.
9
On Sunday we went
In the village with my aunt,
All well dressed
My dad in the striped suit.
10
Our family gift,
Pride that does not humiliate,
She was dressed like this
Blonde like a cherub
11
In the square, but not at random,
Running in a row of two
At the end of the Cult, then,
My father touching his hat.
12
The priest asked one day,
For my father to leave Lucia
To be an angel in the procession,
That the people asked.
13
My aunt didn't like it
This exhibition idea,
Being an angel at home was enough
Showing off wasn't appropriate.
14
At night near the stove
I used to tell Lucia
Scary stories
While the soup was boiling.
15
She used to hold me tight,
(and I wanted her so much)...
Maybe afraid of The Death
That she saw in the window.
16
Until the day came
When the joy ceased
When the curtain fell
From this theater of fate
17
One afternoon, the father working
(I don't know where I was)
On the hill you could see
Figure of her who was there.
18
My dear little sister
That was playing in the garden
Suddenly ran to the kitchen,
Right next to the brazier.
19
I don't know what she did
Ember jumped from the stove
And her dress burned
Like a balloon torch.
20
And she burned it all down
Ruffles, bows, panties,
Lace, ribbons and buckle,
Screaming in that kitchen.
21
She ran to the hill
On daddy's trail
Totally marginalized
Of bushes on the way.
22
The wind hit her
And she burned more and more
In that big fire
Which even formed a flash.
23
At my father's feet she fell,
Who embraced what he saw,
And they both rolled across the gound
In screams and confusion.
24
He came back with his daughter
Naked in his strong arms
And I saw, along the way,
Her hair in the bushes.
25
Because it was falling
Her beautiful hair,
Thread by thread on the slope,
Like a yellow garland.
26
And she died slowly
Saying she wanted me.
She was pink and moaning,
Pink like a piglet.
27
So forgive me, doctor,
I know this pain disturbs
But... in my memory
The child still burns.
28
I appreciate the complacency
That you, doctor, demonstrated.
I will sweep with patience
This bowl that broke.
THE END
07/15/2001






Romance da Candiléia (cordel de Guilherme de Faria)



1
Ó sol perfeito, redondo,
Deste sertão inclemente!
Ó cachoeira de estrondo,
Paulo Afonso, meu parente

2
Segundo ouvi contar
Por um primo distante
Que se chamava Dante
(tá muito fácil rimar)!

3
Vou afinando os meus versos,
Que de viola não entendo...
A música tem seus perversos:
Poetas que não recomendo.

4
Eu sou mais um, mas dos bons,
Daqueles que tiram rima
Como água de pedra, e sons
Como a chuva cai de cima.

5
Por isso, aproveitando
Que hoje estou afiado,
Vou mais um caso contando,
Seja triste ou engraçado.

6
O melhor é quando os dois
Se unem em casos contados...
Tragicômico, pois,
Que é o melhor dos dois lados.

7
Era uma vez (velho prólogo
Que ainda é um bom começo
Para evitar o tropeço
De começar desde logo)

8
Uma moça sertaneja
Sem nenhuma brotoeja,
De pele morena, trigueira,
Sem verrugas, nem coceira.

9
Se chamava Candiléia,
Nome pouco religioso,
Parecendo de uma atéia,
Que logo ficou famoso,

10
Pois no sertão de Marias
Qualquer diferença, é fato,
Causa logo espalhafato,
Se não causa romarias.

11
Mas beleza, este é o ponto,
Perigoso, na verdade,
Porque em qualquer idade
Vira lenda, vira conto.

12
Então ( vocês viram tudo)
Ela havera de causar
Confusão neste lugar
De feias e de parrudo.

13
Candiléia feia e véia
Não havéra de ficar,
Seu destino era uma teia
Já tecida no tear.

14
Foi na festa do Divino
Que tal fato assucedeu
Quando um moço muito fino,
Estrangeiro, se envolveu

15
Pela beleza da moça
E logo se apaixonou;
Era paulista e sem roça,
E o povo se revoltou.

16
Candiléia desinbesta
Por uma noite e um dia,
Sua carne era uma festa,
Uma praça de alegria.

17
O sol torna e ilumina:
Morrer já podia então,
Pois o povo do sertão
Decretara a sua sina.

18
Candiléia, princesinha,
Não sabia a sua sorte
Pois o príncipe-consorte
A tinha feito rainha.

19
Ao descer a ladeira
Com o olhar sonhador
Depois de uma saideira
Que teve com seu amor

20
Foi então atropelada
Por cavalo e cavaleiro,
Ficando meio pelada,
O seio de fora, inteiro.

21
O povo então cortou
Esse seio e o venerou
Com o “Dia de Candiléia”
E praça com o seio dela

22
Transformado em touceira
Redondinha, bem tosada,
Bem defronte à encruzilhada
Onde se faz uma feira

23
Que vende um certo confeito
Com forma de seio e feito
Com “doce de candiléia”,
Doce como uma colméia

24
Mas co’aquela ferroada
Na língua feito pimenta,
Que é coisa que esquenta
E faz lembrar a coitada

25
Cuja beleza durou
Por uma noite e um dia,
Pr’um gringo que a tocou
E a fez morrer na alegria.

FIM
06/03/2005

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Máximas do Trovador Sertanejo (de Guilherme de Faria)




Máximas do Trovador sertanejo
(cordel de Guilherme de Faria )


1
O barro de que foram feitos
Os homens logo refletem:
Correndo para outros leitos
As águas do Tempo os derretem.

2
Seja predador ou presa,
Seja santa ou prostituta,
Todos perdem a beleza
Na triste “vecchiaia brutta”.

3
Por armas tendo uma queda
Por elas morres ligeiro
E se amas a moeda
Morrerás pelo dinheiro.

4
Há outra realidade
Que me parece maldita:
Pois a pior verdade
É a que não pode ser dita.

5
Homem e mulher, no início
Como um só ser se renova;
Mamilo de homem é resquício
E o fiofó é a prova.

6
Mulher de sapateiro
(Haja visto a Maria Bonita)
É chegada em aventureiro
Como aquela brava Anita.

7
Largando marido poltrão
(não queriam usar o quepe)
Uma foi com o Lampião
Outra foi com o Giuseppe.

(Variante):
Largando marido poltrão,
Sem ligar que a gente malde,
Uma foi com o Lampião
Outra foi com o Garibaldi

8
Cuspir deixa a boca seca
Não dependendo do ano
No nordeste dá a Seca
Mas no sul dá Minuano.

9
Se vejo mulher bonita
Fico logo abalado
É uma espécie de desdita
Ser dest’arte desastrado.

10
A Beleza é um mistério
Mormente neste sertão
Um olhar que é refrigério
Ou calor de combustão.

11
A ruindade de alguns
É outro mistério profundo
Ser bom, mas tratado a puns,
Ser mal: aplausos do Mundo!

12
Ao Cristo, se a Terra volvesse
Pediriam “saite” e “email”,
Arroba, com, o estresse,
E conta no bar do Ismail.

13
Encontrei um homem santo
Que preferia calar:
Com medo de causar pranto
Procurava nem piscar.

14
Também não fazia o bem
Pra não ser mal enfocado
Pois o bem pode também
Ser um mal pro outro lado.

15
Resultado: no Inferno
Ele é que foi rejeitado,
Ficando de fora, sem terno,
Sem gravata e sem calçado.

16
Quem nunca se apaixonou
Não pode falar de amor
Como quem não engatinhou
E já quer barco a motor.

17
A gente apaixonar-se
É sinal de humildade:
Acreditar na bondade,
Na beleza, e abandonar-se.

18
Colocar o humano alto
É uma bela ingenuidade,
Que enaltece o arauto
E esmaece a potestade.

19
Pra servir o ser humano
É preciso, pois, candura:
Acreditar na mistura
Como aquele franciscano.

20
Seu herdeiro, aquele um
Que se pode navegar,
Já deu tanto ao bem comum,
Que já querem represar.

21
Não sei se me faço entender,
Vou então simplificar:
Para o pobre enriquecer
É preciso saber dar.

22
Só conservamos o herdado
Deixando o cofre bem oco.
Se sentares no engradado
Só terás um ovo choco.

23
Se mantiveres tua Arte
Teu Bem e tua Verdade
Só Deus vai procurar-te
Reivindicando a herdade.

24
E a Ele devolverás
O que era teu por empréstimo.
Sendo que os juros terás,
Devolvidos por seu préstimo.

25
A vida é, bem no fundo,
Escolinha do Sertão:
Amar tudo e todo mundo.
Pra depois vestir gibão,

26
Que a espinhosa catingueira
Terás de atravessar
Pois a vida é uma carreira
Para um novilho laçar.

27
Esse novilho, atenção,
Será o teu Ideal,
Que laçado, cai ao chão
No meio deste areal.

28
Mas, se o tratares bem,
Mesmo sendo do patrão
Não ganharás só vintém,
Mas a honra do Sertão!


Nota do autor:

Fui questionado por um purista do cordel, quanto a esse texto, que ele considerou "trovas encadeadas", e não "cordel verdadeiro", pois além de serem estrofes e não sextilhas com sete sílabas no verso, etc, não contavam uma história linear. Mas acontece, que segundo a doutora em letras Marcia Novaes, da USP, na sua tese de doutorado sobre o Cordel, este é um gênero editorial e não um gênero literário, tese que ela provou sobejamente com grande pesquisa até na torre do Tombo, em Portugal. Tudo já foi escrito em Portugal e Espanha desde o século XVI, em forma de cordel, isto é em folhetos, em edições do autor: contos, novelas, romance folhetim, sermões, trovas, teatro, sonetos, etc. A condição para ser cordel é ser literatura popular, vendida nas ruas, em forma de folhetos de papel barato, ilustrados ou não. As xilogravuras das capas dos folhetos nordestinos são um notável requinte e tradição em perigo.