domingo, 26 de agosto de 2007

Romance do Leitãozinho (cordel de Guilheme de Faria)


O meu cordel ROMANCE DO LEITÃOZINHO é um dos poucos cordéis de minha autoria que se baseiam em estória real, acontecida mesmo, e que me foi contada por uma sertaneja mineira de 17 anos, que era empregada na casa dos meus pais quando eu também tinha 17 anos. Passados quarenta anos eu ainda me lembrava de sua narrativa e então a transformei neste cordel em homenagem à linda Maria, por quem me apaixonei depois de ouvir sua trágica estória, numa noite, na cozinha, enquanto minha mãe dormia. Apesar do título, advirto que é uma história muito trágica. As pessoas muito sensíveis se preparem... ou não leiam.
Romance do Leitãozinho
(cordel de Guilherme de Faria, de 2001)
1
Vou contar ao Seu Doutor
Depois o doutor decida
Se uma tão grande dor
Pode perturbar a vida.
2
Nós vivia na roça
Na beira de uma estrada.
Nossa casa era palhoça,
Meu pai pegava na enxada
3
Eu no fogão ficava
Pra quentar sua comida
Mais tarde levava na lida
Onde meu pai se achava.
4
Minha mãe, se me lembro,
Morreu de febre terçã
E foi embora em Setembro
Quando nasceu minha irmã
5
Minha irmãzinha era loura,
Não pardinha como eu,
Com esta pele de moura.
E meu pai desentendeu.
6
Tinha o olho esverdeado,
A pele branca bem clara,
O cabelo cacheado.
Era uma beleza rara.
7
O meu pai mimava ela
Que vivia embonecada
Com tanta fita e fivela
Como num conto de fada.
8
Nem trabalho, nem estudo
Mas vestida de princesa,
Ela era uma lindeza
Co’as rendas, fitas e tudo.
9
No domingo a gente ia
Na aldeia co’a minha tia,
Todo mundo enfarpelado
Meu pai c’o terno riscado.
10
Nossa prenda da família,
Orgulho que não humilha,
Ia embonecada assim
Loura como um querubim
11
Na Praça, mas não ao léu,
Rodando em fila de dois
No fim da missa, depois,
Meu pai tocando o chapéu.
12
O padre pediu um dia,
Pro meu pai deixar Luzia
Ser anjo na procissão,
Que o povo fazia questão.
13
Minha tia não gostava
Da idéia de exibição,
Ser anjo em casa bastava
Não convinha mostração.
14
De noite junto ao fogão
Eu contava pra Luzia
Estórias de assombração
Enquanto a sopa fervia.
15
Ela me abraçava forte,
E eu queria tanto ela... )
Talvez com medo da Morte
Que ela via na janela.
16
Até que chegou o dia
Em que cessou a alegria
Quando caiu a cortina
Deste teatro da Sina.
17
Uma tarde, o pai roçando
(Eu não sei por onde ando...)
No outeiro se avistava
Seu vulto que ali lidava.
18
Minha querida irmãzinha
Que brincava no terreiro,
Correu para a cozinha,
Bem pra perto do braseiro.
19
Não sei onde ela mexeu:
Pulou brasa do fogão
E o seu vestido ardeu
Como tocha de balão.
20
E inteira ardia ela
Babados, laços, calcinha,
Rendas, fitas e fivela,
Gritando naquela cozinha.
21
Ela correu pro outeiro
Pela trilha do paínho
Marginada por inteiro
De arbustos no caminho.
22
O vento nela batia,
Ela mais e mais ardia
Naquele fogarão
Que até formava um clarão.
23
No pé do meu pai caiu,
Que abraçou o que viu,
E rolaram pelo chão
Em gritos e confusão.
24
Ele voltou com a filha
Nua nos braços robustos
E eu via, pela trilha,
Seus cabelos nos arbustos.
25
Que largando foi ela
Sua linda cabeleira,
Fio por fio na ladeira,
Como grinalda amarela.
26
E morreu devagarinho
Dizendo que me queria,
Estava rosada e gemia,
Rosa como um leitãozinho.
27
Então perdoe, doutor,
Sei que atrapalha essa dor.
Mas...na lembrança
Ainda arde a criança.
28
Agradeço a complacência
Que o doutor demonstrou.
Vou varrer com paciência
A vasilha que quebrou.
FIM
15/07/2001

____________________________

Como os meus cordéis já há muitos anos foram adquiridos pelas bibliotecas das principais Universidades dos Estados Unidos, e sabendo que são estudados por "brazilianists" dessas faculdades, resolvi facilitar um pouco o seu trabalho, adiantando uma tradução que fiz do meu próprio cordel:

The Suckling Pig Ballad
(Guilherme de Faria cordel, 2001)
1
I will tell you doctor
So the doctor decides
If such a pain
It can mess up our life.
2
We lived in the countryside
On the side of a road.
Our house was a hut,
My father took the hoe
3
I was at the stove
to heat his food
I later took it to his work
Where my father was.
4
My mother, if I remember correctly,
She died of tertian fever
And she left in September
When my sister was born
5
My sister was blonde,
She wasn't dark like me,
With this Moorish skin.
And my father was dazzled
6
She had green eyes,
Pale white skin,
The curly hair,
It was a rare beauty.
7
My father spoiled her
Who lived dolled up
With so much ribbon and buckle
Like in a fairy tale.
8
Neither work nor study
But dressed as a princess,
She was a beauty
With lace, ribbons and all.
9
On Sunday we went
In the village with my aunt,
All well dressed
My dad in the striped suit.
10
Our family gift,
Pride that does not humiliate,
She was dressed like this
Blonde like a cherub
11
In the square, but not at random,
Running in a row of two
At the end of the Cult, then,
My father touching his hat.
12
The priest asked one day,
For my father to leave Lucia
To be an angel in the procession,
That the people asked.
13
My aunt didn't like it
This exhibition idea,
Being an angel at home was enough
Showing off wasn't appropriate.
14
At night near the stove
I used to tell Lucia
Scary stories
While the soup was boiling.
15
She used to hold me tight,
(and I wanted her so much)...
Maybe afraid of The Death
That she saw in the window.
16
Until the day came
When the joy ceased
When the curtain fell
From this theater of fate
17
One afternoon, the father working
(I don't know where I was)
On the hill you could see
Figure of her who was there.
18
My dear little sister
That was playing in the garden
Suddenly ran to the kitchen,
Right next to the brazier.
19
I don't know what she did
Ember jumped from the stove
And her dress burned
Like a balloon torch.
20
And she burned it all down
Ruffles, bows, panties,
Lace, ribbons and buckle,
Screaming in that kitchen.
21
She ran to the hill
On daddy's trail
Totally marginalized
Of bushes on the way.
22
The wind hit her
And she burned more and more
In that big fire
Which even formed a flash.
23
At my father's feet she fell,
Who embraced what he saw,
And they both rolled across the gound
In screams and confusion.
24
He came back with his daughter
Naked in his strong arms
And I saw, along the way,
Her hair in the bushes.
25
Because it was falling
Her beautiful hair,
Thread by thread on the slope,
Like a yellow garland.
26
And she died slowly
Saying she wanted me.
She was pink and moaning,
Pink like a piglet.
27
So forgive me, doctor,
I know this pain disturbs
But... in my memory
The child still burns.
28
I appreciate the complacency
That you, doctor, demonstrated.
I will sweep with patience
This bowl that broke.
THE END
07/15/2001






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