domingo, 26 de agosto de 2007

Romance do Leitãozinho (cordel de Guilheme de Faria)



1
Vou contar ao Seu Doutor
Depois o doutor decida
Se uma tão grande dor
Pode perturbar a vida.

2
Nós vivia na roça
Na beira de uma estrada.
Nossa casa era palhoça,
Meu pai pegava na enxada

3
Eu no fogão ficava
Pra quentar sua comida
Mais tarde levava na lida
Onde meu pai se achava.

4
Minha mãe, se me lembro,
Morreu de febre terçã
E foi embora em Setembro
Quando nasceu minha irmã

5
Minha irmãzinha era loura,
Não pardinha como eu,
Com esta pele de moura.
E meu pai desentendeu.

6
Tinha o olho esverdeado,
A pele branca bem clara,
O cabelo cacheado.
Era uma beleza rara.

7
O meu pai mimava ela
Que vivia embonecada
Com tanta fita e fivela
Como num conto de fada.

8
Nem trabalho, nem estudo
Mas vestida de princesa,
Ela era uma lindeza
Co’as rendas, fitas e tudo.

9
No domingo a gente ia
Na aldeia co’a minha tia,
Todo mundo enfarpelado
Meu pai c’o terno riscado.

10
Nossa prenda da família,
Orgulho que não humilha,
Ia embonecada assim
Loura como um querubim

11
Na Praça, mas não ao léu,
Rodando em fila de dois
No fim da missa, depois,
Meu pai tocando o chapéu.

12
O padre pediu um dia,
Pro meu pai deixar Luzia
Ser anjo na procissão,
Que o povo fazia questão.

13
Minha tia não gostava
Da idéia de exibição,
Ser anjo em casa bastava
Não convinha mostração.

14
De noite junto ao fogão
Eu contava pra Luzia
Estórias de assombração
Enquanto a sopa fervia.

15
Ela me abraçava forte,
E eu queria tanto ela... )
Talvez com medo da Morte
Que ela via na janela.

16
Até que chegou o dia
Em que cessou a alegria
Quando caiu a cortina
Deste teatro da Sina.

17
Uma tarde, o pai roçando
(Eu não sei por onde ando...)
No outeiro se avistava
Seu vulto que ali lidava.

18
Minha querida irmãzinha
Que brincava no terreiro,
Correu para a cozinha,
Bem pra perto do braseiro.

19
Não sei onde ela mexeu:
Pulou brasa do fogão
E o seu vestido ardeu
Como tocha de balão.

20
E inteira ardia ela
Babados, laços, calcinha,
Rendas, fitas e fivela,
Gritando naquela cozinha.

21
Ela correu pro outeiro
Pela trilha do paínho
Marginada por inteiro
De arbustos no caminho.

22
O vento nela batia,
Ela mais e mais ardia
Naquele fogarão
Que até formava um clarão.

23
No pé do meu pai caiu,
Que abraçou o que viu,
E rolaram pelo chão
Em gritos e confusão.

24
Ele voltou com a filha
Nua nos braços robustos
E eu via, pela trilha,
Seus cabelos nos arbustos.

25
Que largando foi ela
Sua linda cabeleira,
Fio por fio na ladeira,
Como grinalda amarela.

26
E morreu devagarinho
Dizendo que me queria,
Estava rosada e gemia,
Rosa como um leitãozinho.

27
Então perdoe, doutor,
Sei que atrapalha essa dor.
Mas...na lembrança
Ainda arde a criança.

28
Agradeço a complacência
Que o doutor demonstrou.
Vou varrer com paciência
A vasilha que quebrou.

FIM

15/07/2001

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